Mudanças e continuidades

Hoje, um jornal notícia que os mais ricos, em 2015, pouparam 500 e tal euros nos impostos depois da grande reforma do governo anterior, e que essas poupanças foram decrescendo até chegarem a zero, pelo meio da escala. Estamos conversados, finalmente? Não, que estas histórias não acabam, já que há sempre voluntários que não as deixam acabar. As continuidades estão no episódio da nomeação da nova administração da Caixa. Sem se saber nada, só lendo o que se pode ler, talvez se possa chegar a uma conclusão. A de que o Governo foi ultrapassado pela união de quem ainda opera no sistema financeiro em circuito fechado. É preciso fazer alguma coisa pois, caso contrário, os problemas por que passámos rapidamente voltarão. Será? Não sei, mas gostava de saber. Como mudar isto? Talvez com menos delegação de poderes, por enquanto, pelo menos.


Passos, May & Companhia

Comecemos pelos últimos. O que se anda a dizer, fundamentalmente, é isto. Tínhamos avisado, diz a companhia, que não havia alternativa e agora aí está a prova, já que a austeridade não só não se foi embora, como é pior, por ser maior e disfarçada, avançam uns, ou "permanente", avançam outros. Logo, não havia mesmo alternativa, concluem. O debate político está assim, intelectualmente fraco ou outra coisa. Isto em Portugal, nesse país ainda aparentemente inexperiente. Schauble, lá longe, mas seguramente não desatento, anda calado, pois sabe o que se está a passar e prefere reconhecer que o seu momento político acabou, por agora, esperando porventura que regresse. Mas esperando no silêncio, não embrulhado em tal argumentário. Não reconhecer a mudança e o que se está a fazer em Portugal é obra. Mas, vejamos, como seria se a "situação" anterior tivesse continuado, pois no é aí, no fundo, que está a prova dos nove ? Não sabemos? Sabemos, claro, pois nada do que por aqui foi feito foi aqui inventado. Olhe-se com atenção ao que se está a passar na Grã-Bretanha de May, onde a mesma política continua, de tal forma que acabou no impasse da saída da UE. Se se quer saber o que se iria passar cá, atente-se às notícias vindas de lá. Ou ao discurso económico de Trump que só não está a ter eco luso porque o protagonista é demasiadamente impopular. Está lá tudo, menos impostos para ricos para, dizem, aumentar o investimento, diminuição do NHS e fim do Obamacare, que não são, dizem, sustentáveis, privatização para melhorar qualquer coisa e, bem-vindos aos anos 2010s, proteccionismo populista. Passos sabe isto tudo e quer isto tudo, mas sabe também, como soube tão bem em 2011 (mas estranhamente ou não, menos em 2015), que não pode dizer o que quer. O plano parece ser, assim, dar argumentos de trazer por casa sobre a "continuação da austeridade" ou o "não haver mesmo alternativa", fazer com que Passos continue lá, e esperar que o actual acordo de Governo caia. Há um lado bom nisto tudo, a saber, o presente Governo não pode dormir descansado e deve mostrar o que vai acontecer nos próximos anos, no que não tem sido muito claro. Passos está à espera, a companhia está a ajudar e muito e May a manter a luz acesa. É triste seguir um debate económico (e político) tão pobre, mas é necessário. 


Austeridade inteligente

Portugal ainda está sob austeridade? Está. No sentido estrito do termo, já que o Governo está a Resultado de imagem para lampadinhareduzir o défice público. Excelente. E há uma austeridade de esquerda? Se quiserem, comprovadamente, há. Então, não mudou nada? Mudou. Agora temos uma "austeridade" que resulta, em vez de uma austeridade que não resultou. Na verdade, o caminho está a ser bem sucedido porque as medidas de "austeridade" têm sido tomadas à medida que se vai avaliando o andamento da economia. Há um lado dinâmico na escolha das políticas públicas. Como deve ser. No regime do governo anterior, as medidas eram tomadas "preventivamente", antes de se ver por onde a economia andava. Com a antecipação das medidas, a economia sofria e acabava por tudo resultar no oposto do que se queria. Quem não percebe isto, é porque não quer, não é porque não pode, tão simples que é. E são coisas sabidas há quase 100 anos. Mas, na verdade, dantes, o objectivo era tanto a austeridade como os eventuais resultados. Um dois em um de má economia. Agora, o objectivo é, simplesmente, o reequilíbrio das contas públicas. Claro que numa discussão com sentido estaríamos ainda a recordar que a "austeridade inteligente" acaba por ser "menor" do que a outra. Enfim, sejamos benevolentes com quem se contenta com uma simples vitória semântica e regressemos à palavra, embora, naturalmente, adjectivada. E adiante que há coisas mais importantes à nossa frente.


Modelos

Pergunta bem "O Expresso", o que resta do cenário macroeconómico do PS de 2015, ano e meio depois? Metade, previa este blogue à data do lançamento do dito cenário. O que terá acontecido, mais coisa menos coisa. Foi todavia uma boa jogada política, uma resposta na moeda do debate económico da altura. Mas o que interessa mesmo é isto: deixámos de ser governados por modelos. Nenhum país o é, dentro e fora da Europa. Era tudo uma invenção do FMI, a que Portugal foi sujeito. Próximo passo? Perceber que não há "orçamentos de crescimento", como os de que se fala por aí. Lá chegaremos também. Para um dia, claro, voltar outra vez atrás.


Há dois sem três

De repente, parece que toda a gente passou a perceber a principal função de um orçamento de Estado, da receita e da despesa públicas: redistribuição. Agora, será preciso esperar algum tempo até que a inteligência nacional assente na constatação desse facto. Entretanto, o Governo e os partidos que o apoiam têm responsabilidades no que se passa pois, pela segunda vez consecutiva, puseram as discussões sobre o Orçamento no centro do entendimento que querem publicitar. O que lhes interessa é dizer que o BE conquistou isto, o PCP aquilo; e que o PS, por seu lado, para equilibrar, não tem conquistas a anunciar. A fórmula resultou até aqui e ainda bem mas, se calhar, por agora chega. Para o próxima, poupem o Orçamento a tanta atenção pública e negoceiem outras coisas. O quê? Do lado do BE, por exemplo, gostaríamos de saber o que querem para o crescimento, onde acham que ele vai aparecer. Não basta dizer mal do euro. Não queremos ideias muito concretas que essas, vindas do poder, são sempre más, mas princípios, fundamentos, linhas gerais. Do PS também. No Orçamento há pelo menos uma ideia boa, de que pouco se falou, que mostra alguma orientação, a saber, a redução do IRC no "interior". Tem de haver mais assim. Falem de ideias mais vastas e não tanto do Orçamento para que as inteligências do país possam também elas discutir melhor. O país, apesar de tudo, precisa de Oposição e de pensar no que vai acontecer daqui a um, dois ou três anos. Talvez. O debate tem sido muito pouco entusiasmante. 


O país das certezas sobre o futuro

Pena Italo Calvino já não ser vivo, pois ele tinha de arranjar um título para este país. Já repararam? Em Portugal, discute-se o futuro, sobretudo o futuro, sobre qual toda a gente tem imensas certezas. Interessantemente. Nos últimos 12 meses, discutiu-se o défice do futuro, o de 2016, e a impossibilidade metafísica de ele ser atingido sem mais "cortes". Não houve cortes - ao contrário - e o défice está sob controlo. Pelo que já não é tema de conversa. É, no máximo, um mero tema de surpresa para aqueles que piamente acreditavam nas virtuosidades da austeridade. Isto, entretanto, depois de termos cinco anos em que não havia alternativas. Já se viu que havia, logo, as "alternativas" saíram do debate. O desemprego está a cair (e o emprego a subir), devagar mas a cair. Logo, sai da conversa. Falta o investimento e o crescimento. Coisas do futuro. Sobre as quais tanta gente há com tanta certeza. E as certezas impõem medidas para hoje, para ontem. É interessante isto de usar o futuro para o debate politico do dia. Sobre o futuro todos têm sempre razão. Até ele chegar. Larguem o crescimento e o investimento. Ou, pelo menos, sejam mais modestos. Alternativamente, defendam os cortes com o presente. Sim, porque é sempre disso que se trata, de cortes. Ou não? É que, na verdade, não consigo mesmo ver o que se quer quando se fala tanto do futuro.


Afinal

Afinal, havia alternativa. Estranho, não é?, depois do tudo o que se disse. E era esta, que se está agora a ver e a sentir. Espera-se que esta alternativa não caia no erro de ir longe demais. Se abusarem como o anterior governo abusou, na sua loucura ideológica, os próximos a governar terão mais fôlego para reverter tudo outra vez. Sim, porque democracia é alternância e os próximos serão diferentes. É por isso que as mudanças devem ser sólidas e cuidadosas. Estão a ir com cuidado? Francamente, ainda não sei responder, mas acho que sim. Veremos. Desde há muito que a questão principal dos governos é a de saber como distribuir o bolo e, sobretudo, como distribuir o bolo quando ele cresce pouco ou nada. No governo anterior, reinava a ideia de que a distribuição a favor do topo é boa, pois, diziam, é aí que se tomam as decisões económicas sensatas e se investe mais e melhor. Era a ideia da "trickle-down economics", deixar que os do topo fiquem melhor para que depois pingue para os de baixo. Há muito que se sabe que isso não é assim. Aliás, o aumento das desigualdades agravou-se nos países governados por essa ideia mas sem grandes mudanças no crescimento. E o crescimento, agora, com melhor distribuição, como vai ser? Não sabemos, ninguém sabe, e não é a discutir "modelos" e décimas que se saberá. As opiniões sobre o crescimento futuro da economia portuguesa, sob o euro e a crescente pressão do resto do mundo, são isso mesmo, opiniões. O resto, é um pais mais igual. Estranhamente, poucos dos que vão ter de pagar um pouco mais têm reclamado com a ideia de um país mais igual. Estranhamente, não, pois este país tem muitas lições a dar e já há alguns séculos. Isso conta e contará. Sobre o crescimento, já veremos.


O 18º resgate

"Um segundo resgate é hoje pouco provável mas mais provável do que há uns meses. Essa é a opinião da maioria dos analistas e especialistas com que o Negócios conversou nestes dias, etc...". E , mais à frente: "O tema do segundo resgate tem estado na agenda desde que o novo governo tomou posse...". Qual agenda? O que é que isto significa? Não há um facto, nada, zero, só especulação. Legítima, claro. Mas, pergunta-se: porquê agora? Para quê? Não havia necessidade, francamente, e com o todo o respeito pelo profissionalismo deste jornalista em particular. Como virar esta página? Quando entraremos na normalidade jornalística, em que as notícias serão notícias e os temas, temas? Depois não se admirem de ver o impensável, como a dirigente do Bloco de Esquerda a defender o ministro das Finanças. Se pensarem bem, na óptica de quem lança estas conversas, elas até têm um lado contraproducente. Como teve o intervencionismo desmedido da troika e seus aliados domésticos que terá levado, de facto, à inédita união de esquerdas em Portugal. Vistas bem as coisas, isto até tem uma certa graça, até porque vai tudo correr bem (mais ou menos, claro). E, se não houver segundo resgate, se o défice ficar no lugar, se a economia seguir o seu caminho, lento, mas caminho, haverá uma retratação? No entretanto, talvez seja de começar a pensar no que dizer sobre todas as ameaças anunciadas até hoje e que não se confirmaram. Em suma, o que se passa? O que querem?


Dica

Não cabe ao ministro das Finanças, mas acabou por ser ele a dar o mote. Está tudo despistado com o que dizer. O Governo acabou ou está a acabar as reposições de rendimentos e agora está sem uma mensagem clara. Centeno, numa entrevista algures no estrangeiro, deu um exemplo do que pode ser dito. É isto. Depois de controladas as contas públicas (sem austeridade é mais fácil - todos sabiam, há décadas), cabe agora enveredar por reformas estruturais que melhorem a qualificação da mão-de-obra, etc. Disse ele, entre outras coisas parecidas. Peguem na dica, virem o sentido da expressão "reformas estruturais", no sentido acertado, de qualificação, reorganização administrativa, etc., e usem-na sem medo. Uma vez posta de lado a conversa tecnocrática do século passado do FMI, é altura de desenvolver uma conversa mais económica e mais europeia. Façam uma lista de reformas estruturais acertadas e falem delas. A economia vai responder, mais tarde ou mais cedo. Mas, entretanto, é preciso mostrar orientação. Será também preciso falar no investimento, certamente, mas talvez de forma diferente da que tem sido feita até aqui (procure-se outra, mais certa, que se encontra).


A burrice

Voltaram as "notícias" sobre a suspensão dos fundos estruturais a que agora se juntou a do "aumento dos impostos", em 2017. Quem faz isto não deve perceber o que faz. É que já ninguém acredita. Mas alimenta o clima da incerteza. Ora, isso é pura burrice, fazer uma coisa que não serve a quem a faz, sendo embora prejudicial. Será que as pessoas inteligentes estão todas ausentes dos sítios onde esta espécie de notícias são inventadas? Parece. Não encontram formas mais inteligentes para dizer que não gostam do Governo? Que desgraça. E com tantas boas ideias por aí que seria preciso acordar. Burrice ou preguiça.