Economia internacional

Grécia e a culpa que nunca é do mordomo

Em Janeiro de 1979, Portugal estava em negociações com o FMI, que eventualmente incluiriam outra intervenção (e que não foi para a frente porque havia muitas eleições à porta). No entretanto, o Governo de então, liderado por Mota Pinto, com Jacinto Nunes nas Finanças, opôs-se a várias recomendações do "staff", isto é, do pessoal técnico do FMI, de tal forma que a coisa subiu ao Conselho Executivo da instituição, cujo Director, pasme-se ou não, se pôs do lado de Portugal, para o que teve o apoio de vários representantes nacionais, incluindo os de Espanha, Alemanha, França, Brasil e Bélgica, embora não os da Grã-Bretanha ou dos "países nórdicos". O resultado da reunião foi favorável às pretensões de Portugal que queria, preto no branco, um abrandamento da austeridade. O que mudou, desde então até ao actual caso da Grécia? As ideias do "staff" do FMI, sobre os benefícios da austeridade extrema? Não, que essas não mudam nunca. O que mudou foi a política e em particular a política europeia. Moral da história: Merkel e seus aliados estão provavelmente a agir em todas as frentes, incluindo as peças que têm lá no FMI, enquanto membros da instituição.


Lutas garrafais

A Grécia está num imbróglio político. Tudo o que por lá se passa tem um impacto político que não tem - ou não teve -, por exemplo, na Hungria ou na Roménia, países da região igualmente sujeitos a "ajustamentos" para terem crédito externo oficial. A diferença é o euro. A solução grega passa por um equilíbrio que agrade aos radicais conservadores alemãs - e seus seguidores em outros países - e aos radicais de esquerda gregos. E é uma luta por títulos de jornal. Difícil, portanto. Todavia, os dados da questão mudaram alguma coisa. Já não se discutem cortes cegos e impostos absurdos desenhados nas secretarias distantes do FMI, mas sim cortes e impostos desenhados por um governo que responde ao seu eleitorado. Se houver dúvidas quanto a isso, leia-se o último resumo feito por quem sabe algo mais da coisa - e a coisa vai mesmo mudar.


Grécia

Há quanto tempo se sabe que os "programas" do FMI não são sobre crescimento mas sobre financiamento de défices externos a troco de impostos nacionais? Há quanto tempo se sabe que a austeridade sem limites nunca funcionou, e sobretudo em democracias? E porque se usaram aqueles programas na Europa? Irlanda e Portugal ainda aguentaram, graças a parcos limites impostos internamente. E Portugal, felizmente, entrou mais tarde. Chipre não aceitou quase nada, nem Espanha ou, obviamente, Itália. Restou a Grécia, o elo mais fraco. Acabou. Mas o que acabou não foi a Grécia, foi a possibilidade de os governos europeus esconderem que sabiam tudo o que se iria passar. Agora, que a Grécia já não precisa do dinheiro emprestado de fora para "pagar salários e pensões", mas apenas para pagar a dívida a quem emprestou (estúpido, não é?), acabou-se a farsa. E a "Europa" pode finalmente reagir e começar a governar também a periferia.


Ideias sem mestre

As ideias andam por aí e é preciso ter algum cuidado. Francesco Giavazzi, economista reputado e obviamente competente, foi um dos principais mentores da ideia da "austeridade expansionista", tendo publicado vários artigos sobre o assunto, até chegar a uma versão em que conclui, com os seus co-autores, que, afinal, são os "ajustamentos" pelo lado da despesa que não causam recessão, ao contrário dos ajustamentos pelo lado da receita. Trata-se da discussão, agora velha, sobre os "multiplicadores", isto é, sobre os efeitos de uma redução rápida do défice público no crescimento económico. Tudo isto foi sujeito a confirmação prática, na crise que atravessamos, e os resultados estão à vista. Tão à vista que as cúpulas das organizações internacionais, que em tempos compraram essa ideia, como o FMI, estão a rever a sua utilização, espera-se que não apenas temporariamente. Mas já há muito que muitos sabiam que havia problemas com estas ideias, incluindo, por exemplo, alguém que olhou mais de perto para o caso supostamente exemplar da Suécia em que, ao que parece, a coisa foi bem mais complexa do que aparece nos estudos de Giavazzi e companhia. Mas não é tudo. É preciso olhar para a forma que toma esta corrente de pensamento quando expressa em linguagem corrente, de opinião publicada em jornais, e aí ainda há lugar para surpresas. No fundo, são ideias que se traduzem em muito pouco, quando utilizadas na observação terrena. Nestes dias, Giavazzi publicou um artigo de opinião no FT com o seguinte título: "Greeks chose poverty, let them have their way". Fui ver, procurando a ironia da frase, mas era a sério. O autor afirma mesmo isto:  "It is pretty clear that the Greeks have no appetite for modernising their society. They worry too little about an economy ruined by patronage." Ou seja, os "gregos" não querem "modernizar" a economia, antiquada e corrupta, e "devemos" aceitar isso. Giavazzi revela aquela que seria a solução de tudo, assim: "Without economic and social reforms, Greece will remain a relatively poor country." Como se escreve isto, com tanta facilidade? A resposta é simples. Em primeiro lugar, não há outra forma de compreender o que se passa quando se pensa que se tem a solução mágica para os problemas (a tal consolidação virtuosa): se sabemos como crescer, pensa quem assim pensa, só não cresce quem não quer (ou é culturalmente inferior); em segundo lugar, há uma enorme ignorância sobre as lições que gerações de economistas e historiadores económicos têm aprendido com a observação das experiências passadas, que mostram quão complexas são as causas do crescimento, incluindo um vasto leque de factores - em que os défices e as dívidas dos Estados não são mais do que gotas de água. Enfim, ideias são ideias e o debate de ideias ganha sempre pelo menos um pouco com todas. Mas difícil mesmo é perceber como houve governos que compraram estas ideias de forma tão convicta. Presentemente, até o actual Governo português, que foi um dos grandes compradores, está arrependido - embora seja um mero arrependimento de circunstância eleitoral.
PS: Outra crítica, com dados e indignação acrescida.


Parabéns!

Difícil seria que, num país desenvolvido como Portugal, não houvesse um grupo de economistas capaz de desenvolver um cenário alternativo ao do modelo de baú e sem sentido que nos governou nos últimos anos. Faltava a encomenda, que em boa hora chegou. Já li, já gostei e gostei do conteúdo eminentemente político, assim como da forma política como foi apresentado. Tão político que nem peço para ver o modelo formal, que um dia deverá ser depositado em lugar público. Parabéns, é a palavra certa. Venham agora a priorização das políticas e o debate.


As "reformas estruturais"

"Reformas estruturais" ou "programas  de ajustamento estrutural" é um termo burocrático inventado pelo FMI. É muito usado por muitos e muitos esqueceram entretanto de onde vinha, mas a origem é mesmo essa. Para o FMI, se as não há, isto é, se o governo em funções não é "amigo", é preciso fazê-las; se as há, isto é, se o governo em funções é "amigo", muito bem, mas é preciso ter calma porque os efeitos levam tempo; se o governo é amigo mas há eleições à porta, é preciso, então, reforçá-las, não desistir delas. Os burocratas que inventaram o termo são,Subir Lall: 'O grande desafio é recuperar o PIB que está ainda ao nível de 2002' normalmente, licenciados em economia, alguns com doutoramento, com experiência de trabalho em instituições internacionais, como o FMI, e raramente em universidades, muito menos de topo. Ainda há pouco veio um a Portugal. Ora, acontece que em economia tudo é quantificável. Onde estão as quantidades, então? Nada, zero. No máximo, têm uns modelos com 10 variáveis, metade das quais "dummies" (falsas, portanto, embora quando bem usadas são úteis) e 140 países, algures no passado. Mas nunca, jamais em tempo algum têm uma avaliação directa do impacto das "reformas" que obrigam (ou nem tanto) alguns países pelo mundo fora a pôr em lei. Nada. Depois, viajam e falam e falam e viajam e dizem sempre o mesmo. À espera de uma promoção que os livre do país que não se "reformou". E as redacções e os jornalistas menos entendidos em economia e na história destas coisas, como acontece em Portugal, lá vão dando eco - seria bom, no entanto, que começassem a tentar perceber quanto do que reportam ficará na história.


Ficar no euro

Há uma parte do pensamento político que quer sair do euro (ver uma boa discussão aqui). Mas as razões são contraditórias, se se tiver em conta o lado político. Sair do euro para quê? Para desvalorizar e criar moeda. Pois, dizem, o Governo podia mandar o Banco de Portugal fazer o escudo mais barato e assim subiam as exportações e desciam as importações, etc... Para além disso, o banco central podia imprimir dinheiro com que ajudava o Governo a cobrir o seu défice e assim a dívida pública seria controlada. Seria o regresso da política cambial e monetária. Seria? Chegar a essa situação, agora, teria os custos da saída, reconhecem, mas deixemos isso por agora, que o problema não é esse. Sem euro, com o actual Governo, tudo ou quase tudo ficaria na mesma. Quando o pensamento oficial fala de "desvalorização salarial", como substituto de desvalorização cambial, está a ser falacioso, pois o mesmo pensamento é contra desvalorizações e a favor de moedas "fortes" (quem desvalorizou em Portugal nos anos 1970 e 1980 foram os "socialistas"). O presente Governo, fora do euro, tudo faria para manter a paridade do escudo e o nível de oferta monetária limitado, pois estaria igualmente rendido à ideia da "austeridade expansionista". E seria secundado pelos seus actuais aliados europeus. E se tivéssemos outro Governo e outra Europa? Então, nesse caso, a ideia da saída do euro seria menos falada, pois teríamos menos austeridade, mais desvalorização e mais emissão monetária ("quantitative easing") do próprio euro. Simples. E há mais, para além dos custos de saída. Fora do euro, teríamos também um sistema bancário cheio de créditos externos, acumulados do passado, aflito e a precisar de resgates públicos. E também a correlacionada “ajuda” externa, condicionada à austeridade. E porque seria só Portugal a desvalorizar? E os outros, não? A culpa não é do euro: é da actual política de gestão europeia do euro. Ou, melhor, do facto do euro estar a ser gerido por quem percebe de moeda e não por quem percebe de economia e, em democracia, quem percebe de economia são os (os bons) políticos. Quem assumir isso vai conseguir mudar alguma coisa. O resto é conversa, importante, mas que distrai.


Contradanças*

1. É interessante notar como não se viu ninguém ensaiar o contrário, nem por um minuto. Mas as regras do pensamento não podem ser quebradas com tanta facilidade. Ensaiemos, portanto. Segundo todos, ou quase, Schäuble "exibiu" Albuquerque. Mas a quem? Quem na Alemanha viu a fotografia dos dois ou sequer imagens da "conferência"? Quantos na Alemanha sabem quem é a ministra das Finanças de Portugal? Uma centena? Mil? 30 mil? E o que lhes interessa aquilo? Pois. Mas pode ter sido contrário. Albuquerque, num acto que terá envolvido uma cuidadosa preparação por parte de conselheiros inteligentes e sabedores, "exibiu" Schäuble, jogando a cartada da credibilidade. Ao contrário do que aconteceu na Alemanha, em Portugal toda a gente viu a cena. À esquerda, houve escândalo, mas à direita, a quem os peritos queriam porventura chegar, houve seguramente admiração. Foi criado o contexto certo para Albuquerque poder dizer, na televisão, perante milhões de potenciais eleitores, que era "colega" do mais poderoso ministro das Finanças (pensa o senso comum) da Europa.
2. A linha "oficial" das interpretações do acordo grego é que a Grécia recuou e os restantes 18 do eurogrupo venceram, versão aliás prontamente expressa pela Ministra portuguesa, que teve ainda o gosto de falar em "troika", como se esta estivesse viva. Mas com algumas concessões, menores, acrescentam. A melhor exposição dessa interpretação foi a de um ex-ministro do PSD que disse que a Grécia tinha capitulado em tudo, embora possa vir a conseguir uma redução no objectivo do saldo orçamental de 2015 (de 1 ou 2 pontos). Capitulou em tudo menos nisso, disse. Quanta intuição económica será necessária para se descobrir a contradição nessa conclusão, que tem sido repetida por muito lado? Fica a questão. Entretanto, a melhor conclusão é que todas as conclusões são presentemente apressadas, dada a complexidade das negociações que vêm aí, numa segunda fase (ver aqui, sobretudo o vídeo).
    (*) Título do último livro de Manuel de Lucena, em homenagem.


O acordo

Não interessa muito, mas desde o primeiro dia que aqui, neste blogue, e em outros locais, se disse que a troika mandava até ao ponto em que os governos nacionais impusessem uma linha vermelha. Por outras palavras, tudo teria sido feito e melhor sem troikas, pois os Estados envolvidos têm um historial de responsabilidade perante os seus cidadãos e parceiros europeus, embora a Irlanda mais do que Portugal e Portugal mais do que a Grécia. O que se passou foi que vários governos destes três países acharam mesmo que os programas de ajustamento eram bons, imbuídos que estavam do espírito até agora crescentemente reinante na Europa de que os problemas de integração monetária se podiam ultrapassar pela magia da "deflação interna", vulgo, austeridade ilimitada. Mas com diferenças de grau importantes. O governo irlandês foi mais tímido e a partir de uma certa altura levantou-se, enquanto o grego e o português, em vez de desenhar linhas, estenderam tapetes vermelhos (assim como o romeno, que um dia virá juntar-se a esta história, mostrando que, sem euro, coisas semelhantes ou piores se passaram). Agora, temos um país, a Grécia, que se opõe à política da troika e o resultado será evidente. Não implementará o dobro do memorando como fez o português (e os gregos anteriores, eventualmente), mas sim 3/4, metade ou menos, ao que acrescentará medidas redistributivas dos custos da austeridade, e isso fará uma enorme diferença. Melhor acordo, pior acordo, não interessa. O que interessa é a mudança na atitude nacional perante o credo que tem assolado a Europa e que precisa de ser rapidamente ultrapassado. Dito isto, houve de facto cedência de parte a parte, à boa e velha Europa.


A armadilha de Schäuble

Copérnico, Galileu, Newton, Edison, Marie Curie, Einstein, todos estes nomes estão associados a grandes avanços na ciência. Pensaram, investigaram e chegaram a conclusões que mudaram a forma como os homens pensam, trabalham e vivem. Há algum economista a colocar numa lista assim? Dificilmente. Os grandes avanços da economia mundial fizeram-se à revelia do conhecimento económico. A Revolução Industrial aconteceu sem que ninguém a tivesse moldado; a grande expansão das Américas no século XIX fez-se à revelia de qualquer ideia económica central; e o mesmo aconteceu com o milagre de crescimento económico europeu a seguir à segunda Guerra Mundial. A mão invisível de Adam Smith ajudou a pensar, mas não previu que 100 anos depois da Revolução Industrial a Alemanha ultrapassasse a Grã-Bretanha, e muito graças ao proteccionismo e à intervenção estatal (nem sempre simpática). A ideia de comércio livre ajudou mas não fez da América a América, nem o sucesso das primeiras décadas da CEE. É impossível ter os instrumentos necessários para se saber por onde as economias vão. Podem ter-se umas ideias e avançar com umas contribuições, mas pouco mais se consegue. É preciso saber ouvir quem está no terreno. É por isso que as democracias são a forma mais bem-sucedida de governar as economias. Em democracia, ouve-se quem sabe. Todos sabem isto. Incluindo Schäuble, o todo-poderoso ministro das Finanças. Um político de décadas, experiente, que nada sabe de economia. Obviamente. O que surpreende é haver tanta gente a pensar que o que está a ser imposto à Grécia decorre de uma análise económica, ainda por cima melhor do que qualquer outra. Não, não decorre. Decorre da política. E quem desenhou o euro fez um péssimo trabalho de economista. Sabemos hoje. Ao contrário do futuro, é fácil avaliar o passado. Construíram uma armadilha. Passos está lá preso, como os demais colegas partidários por essa Europa fora. E Costa, como os demais socialistas europeus, está a olhar para a armadilha, sem coragem para fazer o que é necessário. À espera que os economistas lhes dêem uma contraproposta, que não vão dar, porque não existe. É preciso política. Soares disse um dia que não teria pedido a adesão de Portugal à CEE se tivesse seguido os conselhos dos economistas nacionais da época. Não seguiu, claro. É isso que a Grécia está a fazer. Os socialistas europeus vão ter de aceitar não terem tido a coragem de avançar e devem aproveitar o parco caminho agora desbravado pela esquerda mais à esquerda. Quanto mais depressa o reconhecerem, melhor para todos - e não só para os que está a pagar mais pelos erros.
PS: Interessantemente relacionado.