O grande pequeno debate
Uma pessoa que diz coisas execráveis

Ideias do autocarro vermelho

Ontem, Ricardo Araújo Pereira levou inadvertidamente um bigode de Carlos Guimarães Pinto, presidente do Iniciativa Liberal. Pensou o entrevistador que era um passeio na avenida mas, nestas coisas, raramente assim é porque não há limites à imaginação quando se fala sobre o futuro. Lembremos o caso da campanha do Brexit, que prometia devolver ao SNS britânico 350 milhões de libras por semana, com a saída da UE. Pois, para estes jogos, é preciso estar-se bem preparado. Comecemos pelo princípio, que foi mau, mas que serve já para um primeiro argumento: o da gaguez. Pinto informou que tinha trabalhado muito para reduzir a sua. Mas, como foi isso feito? Eu respondo. Ou andou numa escola privada que detectou o problema quando ele era pequeno e seguiu uma terapia de fala com médicos privados; ou andou numa escola pública que  tinha um bom serviço de acompanhamento e pôde frequentar um médico do SNS lusitano. Não estou a ver como é que um filho ou filha de alguém a ganhar o salário mínimo teria um seguro de saúde que velasse por tal problema. Depois, veio a coisa do imposto sobre o rendimento igual para todos, a 15%, dando o caso de vários países ("todos", mesmo, disse) que seguiram essa política, com ditos inegáveis resultados positivos. Pois, foi um conto de fadas ainda maior do que o do autocarro do Brexit. Não perceber o sistema fiscal da Irlanda é  não querer estudar. Aquilo que por lá existe é uma espécie de paraíso fiscal, autorizado pela CE, aquando da adesão, em 1973. Portugal não conseguiu nem nunca conseguiria o mesmo. Falar da Eslováquia ou da Estónia é uma espécie de marxismo-leninismo ao contrário. E lembremos os resultados do "liberalismo" (apoiado nas ideias valiosas mas hoje largamente revistas de Douglas North), seguido nos grandes países da Europa de leste, depois da queda do muro de Berlim. Se quisermos usar a "técnica" do autocarro do Brexit (e do presidente da IL), então, relacionemos livremente os actuais nepotismos e autoritarismos russo, polaco e húngaro a essa experiência "liberal". Liberalismo na saúde - veja-se a enorme proporção de pessoas sem acesso a cuidados mínimos de saúde nos EUA. Liberalismo na educação? - vejam-se os problemas das dívidas dos estudantes universitários nos EUA e no RU; Liberalismo na habitação? - veja-se o que está a acontecer com o acesso à habitação das pessoas mais novas em Portugal. Liberalismo na agricultura? - veja-se o caso do aumento da infestação de eucaliptos depois da "lei Cristas". Há muito mais a dizer, mas terminemos com outra ideia do autocarro vermelho, a do partido em causa não querer subvenções públicas. Claro, como é óbvio, dado o programa, bastam alguns estalares de dedos para angariarem 50 ou 100 mil euros - os pequenos partidos à esquerda, como bem sabemos, não têm acesso a tais "iniciativas". Liberalismo é muito bonito mas, em sociedades modernas, só funciona com o devido enquadramento institucional. Ora, tal enquadramento tem de ser pago por alguém e 15%, obviamente, não chegam (lembremos as famosas "gorduras do Estado"). É só fazer as contas. Ou ler correctamente a história económica dos países mais avançados. 

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LI

GOSTO MUITO DE SEU BLOG PENA OS AGORA O CONCERNE POR INTERMEDIO DO EXCEPCIONAL UM JEITO MANSO..

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