O ovo do populismo
O grande pequeno debate

O silêncio dos republicanos

O recente tiroteio em El Paso, na fronteira sul dos Estados Unidos, tem ligações explícitas e directas ao discurso de Trump, de ódio contra os imigrantes e as populações não brancas. É muito difícil defender o contrário. Esse discurso é simultaneamente intuitivo e calculado, e tem como objectivo final conquistar o maior número de eleitores. Trump usa como ninguém a informação que consegue coligir através das redes sociais e de outros instrumentos. O escândalo da Cambridge Analytica e a intervenção russa nas eleições norte-americanos são a melhor demonstração disso mesmo e nada nos diz que esquemas Mission Trail, El Paso, TXsemelhantes não estejam em curso. Tudo isto é claro e bem sabido. Mas não chega. É preciso ainda perceber porque é que o Partido Republicano se mantém silencioso e compreender as intenções dos que financiam as campanhas do presidente norte-americano. Ora, não por acaso, para compreender essa parte do problema, podemos seguir um economista que muito nos ajudou a perceber os fundamentos da crise financeira de 2007 e os problemas em torno do desenvolvimento das políticas para a combater. Para muitos, citar Krugman equivale a citar um agente do Diabo. Todavia, quem sabe, sabe que ele mais não faz do que dar-nos uma interpretação económica da política norte-americana, interpretação, aliás, que se pode estender a outras partes do mundo. E o que nos diz ele? Diz-nos que a imobilidade do Partido Republicano perante as atrocidades de Trump e os apoios financeiros que ele recebe das grandes fortunas estão intimamente associados à percepção de que o racismo, a xenofobia e o populismo são presentemente as vias mais eficazes para ganhar eleições e para prosseguir com políticas de redução de impostos e manutenção de privilégios. Isso é assim porque a bateria de argumentos económicos vindos do tempo de Reagan e Thatcher, as ideias de que é bom dar mais aos ricos porque estes investem mais, se tornaram cada vez menos eficientes para a angariação de votos. Por outras palavras, para se compreender o silêncio dos republicanos nos EUA, basta seguir o trilho do dinheiro. A extensão desta ideia simples como a água a outros países é clara. Portugal, ao contrário de outros países da Europa ou fora dela, como o Brasil, ainda está longe do fenómeno. Mas já se vêem por cá muitos sinais de pessoas que querem seguir o mesmo caminho. Talvez nunca venham a ter sucesso, porque Portugal não chegou ao extremo de desigualdade de oportunidades, de acesso à informação, a que chegaram os Estados Unidos. Todavia, imagine-se o que teria sido se a troika tivesse durado mais, digamos, quatro anos, se as desigualdades económicas e sociais se tivessem acentuado e se os interesses económicos estranhos se tivessem consolidado.

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Lidia Drummond

PENA SÓ AGORA CONHECER O SEU BLOG LENDO O EXCEPCIONAL UM JEITO Manso, CUMPRIMENTOS E FIRMAÇÃO. ,

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