A pressão
A burrice

Uma tentativa de explicação

Não é possível que quem manda no jornalismo em Portugal seja defensor de uma só ideia. Não é possível que todos queiram mais austeridade e que esse querer esteja meramente associado a "interesses" económicos. Também não é possível que todos queiram Passos Coelho de volta ou, simplesmente, o fim de um governo de "esquerda". O que se passa? É que, na verdade, quem tem actualmente poder num jornal, numa televisão, regra geral, tem um sentido de argumentação único ou quase. O caso das sanções é paradigmático. E chega-se a cúmulos cada vez mais altos. Comecemos pelo início. A Comissão Europeia está obrigada a velar pelo cumprimento do Tratado Orçamental. É a lei. Um país que não cumpre o tratado deve ser sancionado. Em quanto? Depois se vê. Pode até ser zero. Estou a falar de países fracos, claro. Nenhum jornalista com responsabilidade disse isto. Ainda não ouvi nenhum, pelo menos. Depois, as sanções, objectivamente, são relativas a 2015 e a anos anteriores. Isso até concedem, de tão evidente que é, mas logo a seguir acrescenta-se um "toda a gente sabe" que as sanções são também para pedir um Plano B ao actual Governo. Prova? Nenhuma, que isto não é jornalismo, na verdade. Depois, os mercados, mas como é que os mercados não respondem?, perguntou alguém. Isso não interessa. O que interessa é que o Governo não "arrepia caminho" e daí as sanções. E por aí fora. Mas de onde vem tanta falta de rigor, tanta invenção? Será que serve aos "grandes interesses"? O Brexit, que aparentemente não é do agrado desses tais grandes interesses, na Grã-Bretanha, e que foi em larga medida provocado por uma forma de jornalismo com semelhanças, é talvez prova que isso não é bem assim. Será que serve a Passos Coelho? Claro que serve. Mas acreditamos mesmo que toda esta gente está a trabalhar para um ex-primeiro ministro? Mesmo que isso fosse possível, não chegaria como explicação. Proponho outra, pelo menos complementar. Durante cinco anos ou mais, os jornalistas da "frente" foram bombardeados com uma ideia, uma ideia única em que acabaram por acreditar. Foram cuidadosamente conversados, com entrevistas "exclusivas", com depoimentos, com press releases, com tudo e mais alguma coisa. Agora, não têm outra ideia e estão pregados a essa que lhes foi entregue. Chegaram a um beco sem saída. Claro que o caso é mais geral, pois é comum acreditar-se que Portugal não é a Suíça por causa dos políticos e, em particular, de um tipo de políticos. Mas o beco tem saída, a saída do conhecimento, da informação, da satisfação intelectual, diria. Dá é trabalho. Há seguramente excepções, óptimas excepções, mas que têm um espaço de trabalho nulo ou quase. Também posso estar a ver mal, claro. Na verdade, seria talvez preciso fazer alguma coisa, alguma reflexão, dentro da classe. Tem de haver muitos jornalistas fartos disto tudo.

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