Três ironias
Ideias soltas

Os comunistas

Lá em casa, o meu pai era estado-novista (não era dantes, mas muito ficou, depois do Twenty-five), a minha mãe republicana e socialista e, dos meus irmãos mais velhos, era comunista pelo menos a que mais discursava. Eu cá, estranhamente, nunca gostei muito de política, embora gostasse muito do que a política havia feito à vida à volta. Durante alguns anos, houve muita discussão, mas éramos todos iguais. Fui educado assim. Cá fora, na verdade, os comunistas portavam-se um bocado mal, embora não fossem os únicos. Mas só dois tipos de pessoas os odiavam verdadeiramente. O primeiro, os que muita massa tinham perdido, sendo que alguns tiveram de fugir, e o segundo, não estranhamente, os rivais do MRPP e afins. Entretanto, o país foi avançando. Mário Soares venceu os comunistas, mas impediu que eles fossem ilegalizados. No 25 de Novembro, o país quase entrou em guerra civil, conta-se em alguns livros, embora de forma ainda pouco firme, e Cunhal soube perder e recuar. Era, na verdade, um patriota e respeitado por muitos à sua "direita". Aliás, como lá em casa, no melhor pano (português) também podia cair a nódoa. Precisavam de ser postos na ordem, mas eram portugueses. E o resto do mundo também evoluía, com lições para hoje. Em Maio de 1978, em Itália, as Brigadas Vermelhas mataram Aldo Moro, o presidente da Democracia-Cristã que promovera um "compromisso histórico" com o Partido Comunista Italiano, e formara um governo de "solidariedade nacional", com o apoio comunista. Em 1981, foi a vez de Miterrand integrar o Partido Comunista Francês num governo que durou três  anos. O que aconteceu, depois, nestes países? Nada de muito conclusivo, pois cada caso é um caso: em Itália, os comunistas mudaram de nome (várias vezes) e transformaram-se num partido vencedor de eleições; em França, desapareceram. E em Portugal? Antes disso, em 1979, a AD ganhou as eleições e o país entrou num novo normal. No presente, já que sociólogos, historiadores e politólogos ainda não falaram (com uma grande excepção - atenção que o parágrafo de abertura é do jornal e não faz justiça ao artigo), olhemos para um dado económico, seguramente indicativo do que acontece na sociedade: Portugal tem hoje um nível de desenvolvimento semelhante ao que Itália e França tinham quando os comunistas foram por lá aceites no "arco da governação". Se calhar, já era tempo de fazer cá o mesmo. Digo eu, que nunca fui comunista - nem salazarista, nem do MRPP -, mas que sei que os comunistas são portugueses como os demais. O resto é política.

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