Onde estão os Adenauers do PSD?
Think tank ou think bank?

Os dois manifestos

Confesso que tive algum gosto em comentar o Manifesto dos 28. Primeiro, porque tinha alguma curiosidade em conhecer os argumentos, vindos de quem vinham; segundo, porque, ao lê-lo, verifiquei que a minha discordância derivava da forma como os conhecimentos económicos eram, quanto a mim, mal usados e não de coisas mais vastas. Foi por isso interessante tentar mostrar que aquilo é um documento político e não de teoria ou prática económica. E "sei" que quem o escreveu também sabe isso. Nenhum dos signatários - espero não estar enganado - pensaria alguma vez tentar publicar um "paper", isto é, um artigo científico, com aquele tipo de demonstrações. Tudo legal, portanto. Agora, confesso também que tenho mais problemas com o Contra-manifesto. Mesmo assim, vale a pena falar dele, porque a comparação dos dois revela um paradoxo interessante. Esses problemas vieram desde logo da forma como é assinado. A lista das assinaturas é quase tão grande como o texto do manifesto, pois inclui não só os nomes, claro, como a classificação profissional. Ele é professor isto, professor aquilo. Para além disso, inclui a filiação institucional. Ora, isso para mim não é legal (no sentido brasileiro do termo). Mas há uma coisa pior. O manifesto alicerça-se numa frase que é um perfeito… como dizer?... erro. É esta: “Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social. Em cada ano, perde-se assim mais do que o total das despesas previstas para todas as grandes obras públicas nos próximos quinze anos.” Isto é o mesmo que dizer: “Se ganhássemos todos como os suíços seríamos mais ricos e, consequentemente, a solução é passarmos todos a ganhar como os suíços”. Mas o pior é que isto poderá parecer a algumas pessoas menos atentas como sendo “ciência”. Não é, em poucas palavras, porque o crescimento económico é sobre produção e não sobre consumo, é sobre produtividade e não sobre se as pessoas são tristes ou alegres (sim, digo isto de forma exagerada, propositadamente). Mas vamos ao paradoxo, quanto a mim interessante, relevado pela comparação dos manifestos. Trata-se da circunstância de que o manifesto que tem a assinatura de Francisco Louçã é, nas suas consequências, mais livre-cambista do que o que tem a assinatura de Eduardo Catroga. Parece estranho mas não é. Explica-se pelo simples facto de, sendo Portugal membro da UE e do euro, as obras públicas implicarem uma data de importações, de capitais, de bens industriais e também de mão-de-obra. Louçã quer mais obras públicas, embora sabendo que o mercado é europeu. Não há alternativa. Catroga quer menos obras públicas porque teme os efeitos na balança de pagamentos e na capacidade de os empresários nacionais competirem com o estrangeiro. Para mim, essa concorrência é uma razão adicional para querer estas obras públicas, agora. Quando tenho de escolher, escolho sempre aquilo que traz mais e não menos concorrência ou mercado. Mesmo que os custos possam parecer grandes. É que, todas as contas feitas – normalmente pela história económica –, os benefícios da abertura são na maior parte da vezes superiores aos custos.

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