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Greenspan et son ami Mitterrand

Crowding-out?

Há pessoas que sabem lançar temas, não há dúvida. Uma, recentemente, foi Pedro Pita Barros, num artigo publicado no Diário Económico (ver também aqui). É um tema importante que cai sobre uma designação desconhecida por muitos, o “crowding out”, que quer dizer, como o autor explica no artigo, que o aumento do investimento público pode levar a que haja menos investimento privado. O tema é mais importante nos dias de hoje, uma vez que se pode pensar que a crise financeira pode levar a uma diminuição significativa do crédito bancário à actividade económica. Dito mais correctamente, a crise financeira pode fazer subir as taxas de juro, pela maior escassez relativa de financiamento e pelo aumento do risco. Mas será que perante esta situação, o aparecimento do Estado nos mercados financeiros a pedir dinheiro para grandes investimentos públicos pode causar problemas aos privados? A resposta a esta pergunta é incerta uma vez que ela só pode ser dada pelo passado.  Vejamos primeiro o que diz o passado mais antigo e depois o mais recente. É minha impressão – e friso impressão, não certeza – que, na história da industrialização europeia do século XIX, os efeitos de crowding-out era relativamente pequenos. A razão é que a principal limitação do crescimento do investimento não decorria de fracos níveis de poupança, fracas disponibilidades financeiras e de capitais caros, mas sim de sistemas financeiros desadequados ou de fracas oportunidades de investimento. Se em Portugal se investia menos do que em Inglaterra, não era porque por cá havia menos dinheiro para investir, mas sim porque havia menos oportunidades de investimento. Esta impressão histórica baseada, claro, em muitas leituras, nunca me abandonou e sempre que ouço falar de crwoding-out lembro-me dela. Mas há mais. Há um trabalho muito importante que efectivamente procura medir a existência do efeitos dos investimentos no privado, durante o fontismo. Muitos pressupunham que o Estado no século XIX português teve um comportamento predatório e que por isso em Portugal houve fracos níveis de investimento, em comparação com os países que se tornaram ricos. Ora, Rui Pedro Esteves, num artigo que é já um clássico, mostrou que isso não aconteceu. Afinal o Estado fontista não afogou o investimento privado. Os problemas eram outros, todos os outros que se possa querer imaginar: níveis de educação baixos, situação periférica, fracos níveis de capitalização, pobreza do mercado interno, etc... E nos dias que correm? Bem, para os dias que correm afortunadamente temos este trabalho (ver também aqui), de António Afonso e Miguel St. Aubyn, que nos diz que num conjunto de países da OCDE é mais comum haver uma correlação positiva entre investimento privado e público do que o contrário, tomando como referência todo o último quartel do século XX. E o mesmo para Portugal no período 1981-2005. Veja-se que isto faz sentido. O investimento público em estradas traz empresas para as bermas; em comboios de alta velocidade traz técnicos para os sistemas informáticos; em barragens e electricidade traz novos equipamentos. Claro que um autor como Pedro Pita Barros tem sempre um bocadinho de razão, hipótese que é alargada quando sabemos que o passado não ilumina necessariamente o futuro.

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