De onde vem a ideia da supremacia britânica que, feita a Revolução Gloriosa de 1688, caminhou para a Revolução Industrial e criou a mais potente nação do mundo, durante quase dois séculos? E de que tudo isso foi feito à custa de um espírito empreendedor, superior e que inexoravelmente deveria ser replicado pelo resto do Terra civilizada? De uma corrente historiográfica chamada “Whig History”,
nome retirado do partido com o mesmo nome, e que foi o motor dessa revolução que levou ao domínio do Parlamento na política britânica. Como se tratava de coisas económicas, os historiadores económicos pegaram na ideia e deitaram-na por terra, usando os instrumentos desse grande escocês, um radical do mesmo partido, Adam Smith, e hoje essa interpretação da revolução industrial está nas ruas da amargura. Está? Não, não está, felizmente para o debate. Um dos mais interessantes debates nos dias que correm é entre Joel Mokyr, homem de Chicago, que acha que o mundo rico é como é graças à liderança de um punhado de iluminados, e Bob Allen, um canadiano em Oxford, esse bastião da história económica não-whigiana (com a LSE), que acha que o que aconteceu se deveu a condições económicas propícias, e que as pessoas apenas se limitaram a reagir a isso (enfim, para dizer em poucas palavras algo de muito complicado). E a visão antiga jamais morrerá porque é útil, como se pode ver por Mitt Romney, o grande ícone das festas da cerveja, que usou ideias semelhantes, desta vez tiradas de David Landes, para dizer que Israel era melhor do que a Palestina, porque lá se empreendia mais - e não, por exemplo, porque tem mais capital humano e financeiro disponível.
A que vem isto tudo? Ao facto de os debates historiográficos estarem sempre embebidos daquilo que nós pensamos ser melhor para o presente. O resto é conversa, com mais ou menos personalização, mas quanto menos melhor. David Landes nunca deixava de ir aos seminários do departamento vizinho de História Económica, em Harvard, apesar de as suas ideias dificilmente sobreviverem a testes econométricos. E não há nada como ver Mokyr e Allen, lado a lado, a discutirem vivamente posições inconciliáveis. Volta e meia pode cair uma acusação mais feia ou um argumento menos bondoso. Mas isso são amendoins. Até porque esta gente está constantemente sob a observação atenta, por vezes presencial - porque tudo isto se passa também em conferências e seminários -, dos historiadores mais novos, exigentes, que querem é perceber quais são os bons argumentos, quais são as boas pistas de investigação. Amigos, amigos, argumentos à parte.