Ora, vejamos. Tudo aquilo que tem sido feito, comprovadamente, foi para reduzir o défice externo, isto é, o saldo negativo da balança comercial mais rendimentos correntes, a
balança corrente. Até porque tudo o resto, incluindo a redução do défice público e da dívida externa, tem falhado. Pelas palavras que por aí correram sem desassombro, tudo tem sido feito para corrigir a "vida acima das possibilidades". Muito bem, e agora chegou a "hora do investimento". Essa hora foi declaradamente decidida
na Alemanha, que agora está aflita, sem sítio para onde mandar os capitais acumulados nestes últimos anos. Ou, melhor, com a necessidade de mandar os capitais acumulados nos últimos anos para sítios que paguem melhores juros e tragam rendimentos para as suas exportações. Que sítios? A periferia europeia menos desenvolvida, com menos capitais e, como qualquer manual de economia de liceu diria, com maiores rendabilidades (é aquela coisa de que, quanto menos há, mais vale, lembram-se?). Ora, mas, se assim é, se vão vir capitais de fora e em quantidades importantes, isso tem de ter contrapartida, ou não? Sim, e onde? Só num sítio: na balança corrente que se estava a "ajustar" e que volta desse modo a negativar. Interessante, não é, esta coisa da economia? E o "regresso aos mercados", que tem permitdo a continuação do endividamento externo das empresas, sobretudo das grandes, tão amigas desse "modelo de ajustamento", joga no mesmo sentido da negatividade balancista. Haverá algum dia em que os grandes cérebros financeiros que por aí andam a fazer estes programas de ajustamento se recordarão que, sem controlo de capitais, uma economia como a portuguesa, menos desenvolvida e com menos capital por habitante e por unidade de produto, continuará a importar dinheiro? Não, claro, porque o que eles andam é a tratar da vidinha, a cobrar as dívidas actuais, deixando dívidas futuras para papalvos futuros que depois se terão de amanhar para voltar a cobrar as novas dívidas e por aí adiante. Reconheço que haverá formas mais clássicas - e modeladas - para dizer isto, mas estão fora do meu alcance. Certamente que não escaparão à arte de um futuro Prémio Nobel, já que a economia séria, cosmopolita, ganha sempre.