Desde Waterloo que se anda a dizer que a França já não é o que era. Se calhar, 200 anos já chegam. Mas a França é o que é: a segunda ou terceira economia (depois da Alemanha e empatada com o Reino Unido) e o terceiro centro financeiro da Europa (depois do RU e da Alemanha). Quando alguma coisa muda num país assim, alguma coisa muda na Europa. Também em 1979 a Grã-Bretanha já não era o que era e a vitória de Thatcher trouxe mudanças - embora só confirmadas quando Miterrand pôs os socialismo na gaveta, um par de anos depois.
Mas quer isto dizer que François Hollande vai revolucionar a Europa? Não, claro que não. A política na Europa velha não funciona assim: revoluções ou “profundas reformas estruturais” are for wimps, para aqueles que têm pouca experiência política, poucas lições de história ou, simplesmente, estão cercados por instituições fracas e incipientes que se deixam apanhar. As entradas de leão, como se vê já em Portugal, acabam em saídas de sendeiro. Não, claro, sem antes se darem uns cobres a ganhar a uns e a perder a outros.
Mas há mais. Hollande também não vai fazer uma revolução porque lhe basta o bom senso que tem estado escondido pela ignorância propositada da malta que gira em torno da Sra. Merkel. Aquilo de que a Europa
precisa não está do lado de lá da barreira. Está do lado de cá. Para o mostrar de forma simples, veja-se quem é o conselheiro económico de Hollande, Philippe Aghion. E quem é esse? Um francês, claro, de Harvard e especialista em crescimento económico, do verdadeiro, do "supply side" (link). O que o distingue dos economistas tipo BCE? Simples, sabe mais. Sabe, por exemplo, para citar um seu colega, Mario Monti, que as tais reformas estruturais (em que falam porque as economias modernas estão sempre, de facto, em reforma estrutural) só servem para alguma coisa quando há procura, uma tautologia que seria desnecessária se não estivéssemos numa época teoricamente irracional.
A França já não é o que era, mas ainda é grande. A dimensão faz com que por lá haja muita gente fora da "caixa negra" do pensamento do BCE e quejandos. E estão agora aí, por causa de eleições. O passado não mostra o futuro, mas o passado europeu mostra que Merkel deve andar preocupada com esta mudança de ventos.
E a Grécia? A Grécia e o euro ainda não acabaram, e se acabar a Grécia no euro a gente pode até não dar muito por isso, pois aí Merkel e Hollande estão de acordo desde, pelo menos, Waterloo: não querem entregar o país à Rússia (e muito menos à Turquia). Mas é melhor, por agora, tirar de lá o cavalo, que ainda se pode molhar - e muito.