Provavelmente não. Pensemos nos terroristas como misantropos mais ou menos irracionais com parca educação e baixo rendimento. Pensemos nos ataques terroristas como a origem de custos económicos consideráveis. Pensemos no medo de ser vítima de um ataque como algo racional e bem compreendido. Se pensar desta maneira, merece o conforto de saber que não está sozinho e muita gente também pensa assim. Mas você - e as outras pessoas - estão errados. Provavelmente, totalmente errados. O facto de que o senso comum sobre as causas e as consequências do terrorismo é tão pouco influenciado pela investigação do fenómeno mostra o muito que queremos ainda aprender sobre o terrorismo e a forma de controlar as suas consequências.
O tema ganhou actualidade após o 11 de Setembro de 2001 que, para além do seu impacto mediático, foi realmente um ataque sem precedentes na sua escala. O número de ataques tem flutuado imenso ao longo do tempo, evoluído de motivações políticas para motivações de base religiosa, ao mesmo tempo que ganhou consequências cada vez mais letais. O termo “terror” nasceu com alguns desvarios dos próprios agentes do estado logo após a revolução francesa de 1789, e ganhou a sua expressão mais sombria nas actividades dos regimes políticos de Estaline e de Hitler. Hoje, “terrorismo” aplica-se mais frequentemente às acções de grupos que atentam contra estados e interesses económicos estabelecidos, procurando desestabilizar a economia e descredibilizar o poder político através da impressão de um sentimento de insegurança numa “audiência” que vai quase sempre além dos alvos imediatos dos terroristas.
Num artigo recente, com Fernanda Llussá, editado no volume Terrorism, Economic Development and Political Openness (Cambridge University Press, 2008), tento estabelecer um mapa da investigação sobre as relações entre economia e terrorismo, consciente de que a questão é mais lata e as suas implicações vão muito além do aspecto económico. Mas não surpreende que a economia, ciência das decisões individuais e colectivas, tenha realmente muito a dizer sobre os mecanismos associados ao terrorismo. A literatura sobre o tópico é dividida em sete tópicos:
- A Mensuração do Fenómeno Terrorista
- A Natureza dos Terroristas
- O Custo do Terrorismo em Termos de Utilidade
- O Impacto do Terrorismo no Produto Agregado
- Terrorismo e os Vários Sectores de Actividade
- Terrorismo e Política Económica
- Contra-Terrorismo
Em algumas destas áreas sabemos hoje mais do que em outras e os métodos de análise variam dramaticamente. Assim, a natureza dos terroristas e a análise do seu custo em termos de utilidade baseia-se em modelos teóricos de microeconomia, enquanto uma literatura empírica de base macroeconómica tem estudado os temas 4 a 6. Uma das áreas menos abordadas até agora, infelizmente, é a eficácia das medidas de contra-terrorismo.
Há outras questões chave que continuam praticamente inexploradas. Uma delas é sem dúvida a relação simbiótica entre os media e os grupos terroristas: Nada mais apelativo para a imprensa livre que eventos raros, imprevisíveis e dramáticos. Nada mais importante para os grupos que praticam o terror que a atenção mediática. Como regular esta relação de forma a desencorajar os ataques sem deixar de informar o público? Uma outra questão fundamental é a chamada “organização industrial do terrorismo”. Apesar de tudo indicar a sua racionalidade, pouco se sabe sobre o modo de financiamento, recrutamento, treino e motivação dos agentes do terror. Estas e outras questões exigem abordagens inter-disciplinares, com a intervenção da ciência política, da psicologia e da investigação em jornalismo.
Infelizmente, e pelas piores razões, a questão do terrorismo vai muito provavelmente manter-se na agenda política. Deve também manter-se na agenda prioritária da investigação em ciências sociais, para informar os governos e os cidadãos nas suas decisões.
José A. Tavares é professor associado na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e research affiliate no Centre for Economic Policy Research (CEPR) de Londres.
Ver também J. A. Tavares e F. Llussá in VoxEU.