No post anterior a este pedia-se uma conta de envelope e fui ver. Mas, para quê? Há muita gente a fazer contas a sério. Uma breve pesquisa na Internet (o segredo está nas palavras que se googlam), levou-me a um trabalho, feito sob a égide da OCDE, sobre alternativas de ajustamento, justamente intitulado “Portugal: assessing the risks around the speed of fiscal consolidation in an uncertain environment". Note-se que não é um trabalho "alternativo", mas sim do coração da disciplina de Economia. E o que faz o trabalho? Compara duas alternativas de ataque à crise. Na primeira, os objectivos são nominais, isto é, fixos; na segunda, os objectivos dependem do progresso da economia, ajustam-se ao andamento da economia. Em inglês técnico, o trabalho compara uma estratégia de "sticking to nominal deficit targets" com outra de "letting automatic stabilizers play". Estas duas estratégias são semelhantes, relativamente aos objectivos de redução do défice público e da dívida, e não presumem nenhuma reestruturação ou negociação de juros. E têm níveis de risco comparáveis. Na primeira, na que o Governo segue, o principal risco é o de excessiva contracção do produto, do crescimento, que pode acabar por não beneficiar nem a redução do défice, nem da dívida. Tal como aconteceu em 2012. Na segunda, o risco cai sobre a redução da dívida. Mas ambas são arriscadas. E qual é a principal diferença? É de quem manda, quem tem o poder. O risco ou cai para o lado dos credores ou para o lado dos cidadãos. Mas, notem, não são os custos, a desconfiança, ou outras coisas negativas. É o risco.
Pegando nas palavras do artigo: "To sum up, both strategies considered would in most cases result in sustainable debt dynamics, but there is a trade-off regarding the risks implied. Relative to the 'automatic stabilisers' strategy, the 'nominal targets' strategy brings more certainty in terms of debt decline and lower interest rates in the medium-term, but at the risk of a deeper recession in 2013-14, reflected in higher unemployment and declining prices." (p. 17).
E o que é que isto interessa? Interessa porque, ao se dar espaço aos estabilizadores automáticos, não são necessários ajustamentos selvagens como o que está em curso, nem a tal "reforma do Estado" dos 4 mil milhões. É fazer o resto das contas. Claro que a verdadeira questão não é essa, das contas, mas sim política. É por isso que é sempre falacioso falar da inexistência de alternativas. E, para azar, aquela de que acima se fala joga no mesmo tabuleiro da que ainda está em curso neste país.



