Muitos já o sabiam, mas o povo não, embora pudesse sabê-lo se tivesse lido as notícias sobre Espanha de ontem. De facto, estamos numa viragem, pois uma parte considerável dos títulos vendidos pelos países periféricos está a ser comprada por bancos e fundos sedeados no estrangeiro. Em Espanha, ontem, a proporção foi de cerca de 60% e, em Portugal, hoje, não ficará longe disso. É uma viragem pois já não são bancos nacionais em combinação com governos nacionais a fazê-lo. Dito isto, é necessário colocar três questões, a saber, qual a origem da viragem, porquê agora e, mais importante, o que fazer a seguir.
Esta viragem está há muito planeada por Bruxelas e Frankfurt, com a intervenção dos mais importantes governos europeus e, obviamente, periféricos. A ideia é dar ao BCE um papel no mercado dos títulos da dívida pública, condicionado a que os países da periferia conseguissem colocar alguma dívida em mercado aberto. A nomeação de Draghi para o BCE abriu a porta, a eleição de Hollande ajudou, e os governos periféricos, ao garantirem que estavam no jogo, também. Um aspecto importante, é que as garantias da periferia foram dadas em circunstâncias diferentes, quer quanto ao nível de austeridade, quer quanto à existência ou não de financiamento sob a égide de troikas. Espanha não pediu a intervenção e teve menos austeridade, seguindo-se os países intervencionados, Irlanda, Portugal e Grécia, sendo que este último foi o que teve mais austeridade, uma intervenção externa mais intrusiva, e piores resultados.
E porque se dá esta viragem agora? Essa pergunta é mais difícil de responder, por enquanto. Em primeiro lugar, note-se que as armas utilizadas já existiam, pois não foi necessário mudar nenhum tratado europeu. Ou seja, teria sido possível seguir este caminho logo no início da crise, há dois anos. Mas também houve alguma aprendizagem, entretanto. A decisão de fazer o que está a ser feito foi formalmente tomada em Julho de 2011 (ver post "Mais tempo (2)") mas ainda foi decidido esperar mais uns tempos. As razões serão várias e algo difíceis de perceber. Entrados em 2012, o governo irlandês porventura quis esperar pela presidência da EU, o português pelo orçamento de 2013 e o enorme (e absurdo) aumento de impostos, e o alemão terá gostado do adiamento da decisão que coloca a eventual solução da crise mais perto das eleições que vai ter em Setembro.
Finalmente, o que fazer com a viragem, com a mudança nas condições dos mercados da dívida soberana? Essa pergunta já foi parcialmente respondida na Grécia, onde haverá uma moratória na austeridade de 6 meses, decidida pelo Eurogrupo, e em Espanha, a quem já foi autorizado um défice de 8% em 2012 e de 6% em 2013. Também a Irlanda ainda está com elevados défices e muito longe do objectivo de 3%. Isto significa claramente que a viragem está a trazer mudanças no grau de austeridade exigido aos países periféricos.
E em Portugal? Em Portugal, o Governo ou assume, finalmente, que tem de acompanhar a viragem, ou então tem de sair. Mas isso fica para outros debates.



