Se acreditarmos no Governo, o pedido de mais tempo para pagar os empréstimos da troika deveu-se a uma mudança de conjuntura em Berlim, Paris, Frankfurt ou Bruxelas, prontamente aproveitada, em comunhão com a Irlanda, o segundo país resgatado e bem comportado. Todavia, não chega acreditar no Governo, por uma razão principal: também houve mudanças quanto ao nível de austeridade exigido pelos credores oficiais internacionais, aproveitada pelo governo irlandês, assim como o espanhol e o grego, e descartada pelo português (ver algures neste blogue).
Precisamos de saber mais, para o que devemos fazer a mesma pergunta de sempre: quem ganha com o alargamento dos prazos dos empréstimos? Se houver menos austeridade, podem ganhar muitos; se se mantiver o mesmo nível ou se for aumentado, as contas são mais difíceis de fazer. Mas, vejamos.
O Estado português tem, fundamentalmente, dois tipos de credores, a troika, por um lado, e os bancos portugueses e internacionais e vários fundos de investimento, por outro. Entre este segundo tipo, como sabemos, os bancos portugueses ganharam um peso considerável, nos últimos 12 a 18 meses. Ora, se o Estado puder levar mais tempo a pagar à troika, pode pagar mais depressa aos restantes credores. Será isto? Não deve ser toda a verdade porque, caso contrário, seria fácil demais. Mas deve andar lá perto.
Entretanto, fomos sendo entretidos por debates e conferências sobre a "refundação do Estado" e informados por secretários de Estado de que haverá ainda mais austeridade em 2013. Enquanto isso, o Ministro das Finanças remeteu-se ao silêncio, aparecendo agora com a boa nova do pedido da moratória. Parece claro que as duas coisas são para ser separadas. Paralelamente, os presidentes dos bancos portugueses também nada disseram durante o último mês ou mais, silêncio quebrado ontem por Fernando Ulrich, em apoio do Governo (de notar que Ulrich, em três meses, mudou de ideias quanto à necessidade de eleições antecipadas).
Teorias da conspiração? Não, um exercício legítimo de quem quer compreender o que se passa, num contexto em que, comprovadamente, o que se passa pouco tem a ver com o que é dito oficialmente.
PS: Se este post tivesse sido escrito 24h depois teria sido um pouco diferente, mas não na substância. Ver adiante "O que fazer com a viragem?".



