As respostas só podem ser duas: porque achou que devia falar ou porque o Governo português lhe pediu. Eu voto na primeira. Na Comissão, as reuniões os governos nacionais não são secretas, mas agendadas e de conteúdos conhecidos. Pode haver embargos e matérias sensíveis classificadas. Mas não é seguramente o caso destas, como se viu. Assim, mais tarde ou mais cedo, saber-se-ia que as condições tinham sido negociadas em Bruxelas antes de serem apresentadas em Lisboa, e Barroso antecipou-se para que se soubesse por ele. O Governo português negoceia com a troika e não quer negociar com os parceiros sociais ou com o principal partido da Oposição. O truque, claro, é fazer chantagem com o país dizendo que as coisas ou são assim ou não são aprovadas. Como já foi anteriormente tentado, mesmo dentro do Governo, ao que parece, com a primeira proposta de TSU. É o jogo do "não há alternativa". Especulações? Veja-se o que Barroso acrescentou: "O Governo estará talvez à espera da aprovação pelos seus parceiros das medidas que podem garantir os objectivos da consolidação orçamental. Nós, Comissão, estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para garantir que estas reformas se façam da forma mais harmoniosa possível". Há quem saiba, fora do Governo, se tudo isto é assim ou não. A Presidência da República tem de o saber. Se for verdade, não vejo muitos outros motivos semelhantes para a demissão de um governo por parte do Presidente. A democracia pode ser subvertida mas nunca por muito tempo. Vejemos as surpresas que os próximos dias ainda nos reservam, até ao anúncio da débacle orçamental que aí vem.



