O euro que você tem nos bolsos não foi mal desenhado. Foi, isso sim, desenhado à imagem de um modelo em que os desequilíbrios são contrariados apenas por ajustamentos de mercado e sem ajuda de prestamistas de último recurso. Por outras palavras, foi desenhado à imagem do padrão-ouro oitocentista e não do sistema monetário nascido em Bretton Woods. Pode ter sido uma ideia "francesa" (ou holandesa ou belga), mas a sua concretização foi feita à banco central, à monetarista. Houve um tempo que pensei que isso foi assim porque de outro modo não podia ter sido. Mas cada vez mais podemos discernir sinais de que isso foi assim porque quem estava no comando assim o quis.
Recorde-se que, no padrão-ouro, quando um país entrava em crise externa de pagamentos, o respectivo banco central subia os juros, o investimento e a economia contraíam, mas os juros mais altos atraíam capitais e a balança reequilibrava. Este ajustamento tinha de ser feito até ao último tostão. Com Bretton Woods, as coisas não mudaram no fundamental, mas não era preciso ir ao último tostão, pois o FMI dava uma ajuda, mais ou menos severa, e as moedas podiam desvalorizar uns cêntimos. Tudo isso ajudado pelo controlo da circulação internacional de capitais.
E com o euro? Os feitores do euro sabiam que alguma coisa teria de ajustar para contrariar os inevitáveis desequilíbrios financeiros internacionais (as tais "loucuras sulistas"). Sem taxa de câmbio e sem FMI ou equivalente, o que restava? O mercado de trabalho, claro, e as desvalorizações salariais. Vai daí, os bancos centrais, por toda a Europa do euro, enveredaram por estudos sobre os mercados de trabalho, a flexibilização do mercado de trabalho, a comparação de salários entre países. E assim nasceu a moda dos custos unitários do trabalho, que é uma medida dada pela relação entre salário e produtividade do trabalho (um país de salários altos e produtividade também alta pode ter custos do trabalho menores do que o seu vizinho de salários baixos, se este tiver produtividade ainda mais baixa).
Dos custos do trabalho às mexidas na TSU, que neles se inclui, foi um passo e chegámos aos belos dias que por aqui correm.
Tudo bem? Não, tudo mal. A razão é que esta ideia de olhar apenas para o trabalho foi uma enorme regressão na análise macroeconómica. É que, sabemos desde há algumas décadas, temos de olhar para a produtividade total dos factores, o que inclui trabalho, capital e tecnologia, e não apenas para a produtividade (e custo) do trabalho.
Confuso? Então pense-se no seguinte: a redução da TSU para as empresas em 5,7% traduz-se numa redução de custos totais de apenas 1,2%, como o "Público" em boa hora calculou. Porquê? Porque tudo o que não é trabalho não está incluído nessa redução. Por outras palavras, há mais a reduzir do que os custos do trabalho. Adivinhe-se o quê? Pois...
Em suma, os custos unitários do trabalho e a ênfase nos ajustamentos internacionais com base em mexidas apenas nos salários é algo que ficará para a história, e quanto mais depressa melhor. Dava uma ajuda se o FMI, Bruxelas, o BCE e os seus gabinetes de estudo o quisessem, mas isso será difícil. Que venha a política de volta e que estes dias que correram em Portugal ajudem a Europa a perceber quão necessário isso é. Por cá, a ver vamos.



