Se tivesse de apostar, diria que o episódio da "taxa social única" teve custos directos para o país equivalentes a um dia de trabalho. Isto é, um dos feriados que foi tirado, em 2013, terá ido pelo cano abaixo. E os custos indirectos ainda estão por determinar, uma vez que muito dependerá do que for feito a seguir. Lendo e ouvindo a imprensa, os maiores responsáveis estão identificados e não serão mais do que uma mão cheia, mas não vale a pena apontar os nomes, que a história se encarregará disso. Na verdade, também interessa pouco, dado que a responsabilidade, em política, tem de ser alargada. Por exemplo, a troika, ao não dizer nada, também foi, de certo modo, conivente. E os bancos, se foram
avisados antes, também.
Entretanto, o centro do problema mudou para junto do Presidente da República, do Conselho de Estado, e de um grupo de trabalho constituído por representantes da presidência, da concertação social e do Banco de Portugal. Isto soa bem?
Em tempos normais, o Governo governa e o Banco de Portugal toma conta da regulação bancária, da política monetária, junto dos seus parceiros do euro, e vigia as contas e o cumprimento das metas do Governo. Agora, o Banco de Portugal é um parceiro da governação e isso já é considerado normal, ao ponto de aparecer sem surpresa na procura de uma solução para um problema eminentemente político. E devemos estar preocupados com a solução "técnica" que aí vem.
E o PS, faria algo de diferente? Isto é, sabemos que o seu discurso é diferente, assim como os objectivos anunciados, mas se o enquadramento de governo não mudar, é grande a probabilidade de se voltar ao mesmo.
Paira um grande equívoco no ar, segundo o qual as Finanças precisam de um técnico à frente. Todavia, sabemos que isso não é verdade na maior parte da Europa. É preciso pensar nas vantagens de entregar o Ministério das Finanças a um político, bem acompanhado dos bons técnicos que por lá há. E pensar também nas vantagens de o Banco de Portugal se concentrar numa das suas funções fundamentais, de vigilância ao Governo. Ao devolver a governação financeira à política, talvez sejam menores os riscos de se tomarem medidas com custos eonómicos gigantescos e nenhum retorno.



