...que a discussão está tão acesa que até tenho o raro medo de levantar a mão para falar, não vá ofender alguém e ser mal interpretado. Mas talvez isto ajude a quem queira pensar sobre o assunto. Sou o quinto filho de uma família em que as acusações de fascista e comunista voavam nas discussões mais acesas, durante o PREC. O meu pai, salazarista, leitor assíduo da "Rua", era, respeitosamente, o "fascista", e os meus irmãos mais velhos, incorrigíveis esquerdistas, eram os "comunistas". E, para confusão maior, o meu avô (materno) era um republicano saneado pelo salazarismo, que se tornou um opositor tolerado pelo "regime" (infelizmente morreu logo em 1975, tendo sido uma das pessoas que mais me influenciou). No meio daquilo tudo, se queria dizer alguma coisa, do alto dos meus 15-16 anos, tinha de ser diferente, o que fazia parte da educação e tinha como resultado que, para o meu pai, eu não deixava de ser um esquerdista como os outros, e, para os meus irmãos, um "capitalista". Não se pode dizer que esta preciosa herança me ajude a encontrar um lugar na actual e importante discussão. Amizades à parte, claro. E compreendo que seja uma discussão difícil. Se não estou a passar totalmente ao lado, a moral da história é que o que interessa é o caminho que se tem de fazer para encontrar a melhor interpretação do passado, e que esse caminho tem de ter o contributo de todas as formas de pensar. Se há sentimento de ofensa ou de comportamento menos digno, que se fale ou não deles, e que depois se sacuda tudo e se siga em frente. Mas que haja sempre espaço para todos mandarem os bitaites que quiserem. Em democracia (como em família), o bitaite é importante.



