Fiquei tranquilizado por Vasco Pulido Valente se mostrar também indignado, hoje no “Público”. Mas é preciso acrescentar que pode não se tratar de uma alucinação, como sugere. A proposta de mexida na TSU apresentada pelo Governo faz parte da forma como a crise está a ser atacada por este governo - e é ele o responsável absoluto pois, em vez de negociar com os credores, faz mais do que eles próprios pedem. Há muito que as pessoas em torno da actual política financeira propõem a chamada "desvalorização fiscal", que já vi ainda mais eufemisticamente chamada de "reset salarial". E, logo à noite, vamos ter o Dr. Vítor Bento, economista de respeito, mas com as ideias erradas, defender isso mesmo na televisão. A ideia é que, como não há moeda própria, etc., etc., baixam-se os salários – já toda a gente sabe. Mas isso é errado? Sim, e como se trata de economia só o podemos demonstrar de forma indirecta. É errado porque chegámos a um défice de 6,6% com um desemprego de 16%, o que é, obviamente, um fiasco: qualquer governo moderadamente europeu chegaria a uma taxa de desemprego de 12%, com um défice tão alto. Errado? Sim, meus caros economistas monetaristas, a atenção excessiva aos salários é um retrocesso gigante na teoria económica: enquanto os economistas do crescimento (e os historiadores económicos) andam, desde pelo menos Solow, a mostrar que é preciso olhar para a produtividade total dos factores, isto é, a produtividade do trabalho e do capital, vocês só olham para a primeira e isso é incompleto. Errado? Sim, porque as economias ajustam-se pelo mercado e não por medidas de choque de eficácia não comprovável e obviamente reversíveis com mudanças de governo. Errado? Sim, porque o produto nacional está abaixo do seu potencial e por isso a procura é importante.
É por se tratar de um projecto de longa data, de gente persistente, e de um programa comprovadamente falhado, que estas mudanças na TSU não devem ser negociáveis. O que é negociável é a forma de atacar o défice e a dívida e para isso é preciso pôr mais política no Ministério das Finanças. Nesta fase, a troika seguramente que agradecia. Até eles, seguramente, já perceberam que muito mudou relativamente às expectativas de há um ano (elas também erradas, aliás).



