Há uns tempos apareceu nos media portugueses uma opinião emitida algures do BCE, segundo a qual era preciso baixar salários nos países da periferia. Isto merece primeiro uma pergunta que é a de saber como é que essas opiniões são emitidas, por quem, e como chegam a Portugal e a poucos outros sítios. E merece um comentário também. O problema dos salários na periferia é sério e alguma coisa terá de mudar. Toda a gente sabe isso. E está a mudar, uma vez que os salários estão a baixar, de facto. Não por causa das declarações como a
citada, mas porque a economia funciona assim. Aliás essas declarações são meramente políticas, feitas para criar o ambiente propício a essa baixa. E que um governo periférico, como o nosso, diga o mesmo, ok, é uma opção política legítima, apesar de não lhe caber meter-se no assunto, sobretudo quando se diz liberal. Que um governo dos ricos europeus o diga também, ok, não há problema, pois tem de velar pela sua ideologia e vida política. Agora, que seja o BCE a dizê-lo, é que já é altamente questionável. Não por estar a meter a foice em seara alheia, pois o banco nem tem grande culpa, dado o vazio institucional do euro. Mas pelo que revela. Portugal terá salários altos mas em termos relativos, obviamente, não absolutos. E relativos a quê? Aos salários alemães. Então, se o BCE quisesse dizer alguma coisa esvaziada politicamente, como lhe compete, deveria emitir uma opinião sobre os salários relativos e sugerir que os portugueses baixassem os seus ou, alternativamente, que fossem os alemães a subir os seus. Simples, não? Todavia, nada disse sobre essa alternativa e por uma razão também simples: o BCE é o banco dos bancos e não uma instituição de caridade ou um governo que tem de zelar por todos os eleitores e não apenas pelas rentabilidades bancárias. E haveria condições para que subissem os salários na Alemanha, por pressão dos sindicatos, claro, e não de retórica alienígena? Sim. Recorde-se que houve por lá um controlo generalizado de salários, nos últimos 10 anos, para ganhos de competitividade dentro da União Europeia e não fora. Podia ser hora de reverter isso. E muito boa hora mesmo.
Moral da história: é preciso tirar o BCE dos comunicados sobre política económica e remetê-lo ao que sabe e deve fazer. Mas, afinal, isso é que acontece, pois essas opiniões só chegam aparentemente aqui, à periferia. Não lhes liguemos muito, talvez. E, na verdade, a solução verdadeira não passará por ajustamentos de salários, claro, apesar da insistência do BCE e de outros bancos centrais.



