Há muito ruido por causa da visita da troika, ruido que alivia responsabilidades. Não esqueçamos, todavia, como isto tudo começou. E começou com certezas, baseadas num determinado modelo. Mas essas certezas já revelaram dois erros. O primeiro foi o da subida do desemprego, que surpreendeu todos, isto é, todos os que compraram a visão que foi dada; o segundo foi, agora, o dos impostos. O aumento do desemprego levou a uma revisão do modelo, não se sabe bem para quê. Este novo erro está a ser mastigado com maiores dificuldades. Podíamos perguntar como é que não contaram com a descida do IVA, provocada pela diminuição das importações e do produto, ou com a subida dos encargos com os desempregados (pois...). Mas o problema é mais fundo, pois não se pode modelizar com tanto pormenor uma economia, sobretudo quando segue por caminhos nunca dantes navegados (o que é quase sempre o caso, aliás). Estes dois erros são graves pelo que fizeram ao nível de vida em Portugal, mas também pelo que ainda vão fazer, pois não parece haver coragem política suficiente para os reconhecer. Mas há mais, pois vem aí outro erro: o da transformação estrutural.
O modelo em curso, que é do Governo e não da troika, diz que tudo está a ser feito por causa da necessidade de uma mudança estrutural profunda. Já se fala menos em "bens não-transaccionáveis", pois nem um estudo do Banco de Portugal os conseguiu definir, mas ainda se fala no "excesso de construção", no "excesso de serviços". A ideia seria acabar com a construção "a mais", com os restaurantes "a mais", e pôr toda a gente a trabalhar no sector dos "transaccionáveis". Há uma espécie de cegueira colectiva nisto que afecta, inclusivamente, o ministro da Educação, o que me surpreende, devo dizer. Cegueira que nem permite uma simples vista de olhos pelas mais elementares estatísticas económicas.
Encurtando razões, deste estudo, seleccionei estes gráficos que comparam a evolução da estrutura da economia portuguesa, entre 2000 e 2011, com as de Espanha, Irlanda, Alemanha e Reino Unido. O que se vê? Vê-se como o sector da construção tem uma dimensão relativa média-baixa em Portugal e como ela se manteve estável (ou até ligeiramente descendente) naquela década; vê-se como o sector dos serviços idem aspas, etc. O problema não está no tamanho desses grandes sectores produtivos: dentro de cada sector é preciso fazer coisas melhores, e o governo não se deve meter nessa escolha. E não deve asfixiar a economia como está a fazer.
Passemos então os nosso olhos atentos pelos gráficos e mandemo-los para um ministro perto de nós. Não que isso sirva de alguma coisa, que o problema não é, afinal, de escolhas económicas, mas sim de escolhas ideológicas, disfarçadas de económicas, e sob a sombra das costas largas da troika. Sim, estou preocupado.