Pois é. Os historiadores económicos não têm feito o seu trabalho bem e ainda hoje muitos não percebem um plano de reputação mundial. A razão é simples: o Plano Marshall foi desenhado para não ser compreendido. Se o povo o compreendesse, na sua plenitude, nenhum Presidente eleito no mundo avançaria com ele. O mesmo se passa com a solução para a crise do euro mas, adiante.
O Plano Marshall foi anunciado em 1947 como um Programa de Reconstrução Europeia, segundo o qual o governo norte-americano se dispunha a financiar a recuperação das economias europeias, devastadas pela guerra. Os montantes envolvidos eram grandes e mensuráveis, mas a causa era nobre: recuperar a Europa e o mundo de uma das maiores desgraças da sua história.
Mas o Plano Marshall foi muito mais do que dar dinheiro à Europa para reconstruir fábricas, equipar indústrias ou comprar cereais para populações famintas. Ele foi também uma arma para destruir as barreiras proteccionistas, alfandegárias ou outras, e, porventura ainda mais importante, para reequilibrar as finanças internacionais e permitir a recuperação da economia mundial. Isso implicou um enorme perdão de dívida à Alemanha, como explica Albrecht Ritschl, num artigo no "Economist" (ver também aqui), e a criação da União Europeia de Pagamentos, que permitiu a compensação de deficits bilaterais, entre pares de países, como explica Nick Crafts, num artigo na "Vox".
Dito por miúdos, o Plano Marshall foi parte do sistema de Bretton Woods e teve como principais objectivos: 1) financiar défices externos até 4 ou 5% do PIB dos países carenciados; 2) obrigar à diminuição das barreiras ao comércio; 3) criar condições para o restabelecimento dos fluxos internacionais de capitais. Tudo do que precisamos novamente agora.
A forma como tudo isto foi vendido ao povo foi inteligente e, se assim não tivesse sido, o plano não teria sido possível. Essa embrulho criou um mito que até historiadores responsáveis ainda compram. É tempo de acabar com o mito, ver a realidade e usá-la. E perceber que é falacioso argumentar que o que não se faz é por causa dos eleitores: basta os líderes democraticamente eleitos quererem, para que se faça o que muitos sabem, há pelo menos um par de anos, ser necessário. O resto é conversa de embalar. Claro que o embalo é hoje mais fácil porque, felizmente, não estamos a sair de uma guerra devastadora nem a entrar numa guerra fria. Pois...



