Não me apetecia nada falar nisto, francamente, por causa da consideração que tenho pelas pessoas envolvidas. Mas a notícia do almoço foi gota e de água, e tornou tudo evidente e público, permitindo-me falar.
Primeiro, foram coisas que ouvi nos corredores sobre o processo que levou ao evento. Depois, o formato do próprio evento. Estranho. Como é que os três reitores se deixaram convencer? Três doutoramentos implicam que um não seria suficiente. Não prestigia. Tudo isto antes de ir ao dito. A seguir, o próprio evento. No palco, 3, 6, 8, 12 homens sentados, sem uma única mulher, para mostrar bem o nosso atraso. E ainda um 13º, togado, caminhando de um lado para outro. A parte das perguntas foi outra gota. As pessoas não as podiam fazer: estavam escritas. E havia uma (de propósito?) sobre investimentos "chineses", que levou a resposta merecida. E uma claque do público para coisas laterais.
No meio, safou-se a conferência do homenageado e também a do Prof. Silva Lopes. Da segunda,
excelente, não cabe aqui falar. Da primeira, é um economista fora de série e disse duas coisas sobre o mundo que é ele quem diz e mais ninguém: vejam a história, a Grande Depressão, leiam o vosso Bernanke (2001) (acho que é este) - a que eu acrescentaria o Bernanke (1983) (este) -; e olhem para as taxas de juro, a nível mundial, baixas, a gritarem por investidores que utilizem o "excesso" de poupança, ou seja, que disparate dizer que não há dinheiro.
Quanto ao que disse depois sobre Portugal, em entrevistas, disse a partir do que lhe contaram e queriam que ele ouvisse e, claro, entrou em gigantesca contradição, como precisamente, facilmente, Miguel St. Aubyn lembrou: olhe lá, você não quer mais austeridade, mas quer salários mais baixos? E você sabia que os salários em Portugal são apenas 30% dos custos, como aliás em qualquer economia normal? Ao que eu acrescentaria: sabia que há custos de produção em que não se mexe, até porque as empresas protegidas em Portugal continuam a recrutar gente próxima dos governos para que se mantenham os excessos? E sabia que as medidas foram para os mais pobres, ao contrário da Grécia ou da Irlanda? E que foram para além do que era preciso, que eles se anunciaram como querendo ir para além da troika? Claro que isto não ouviu.
Uma encenação inqualificável. Pobre Krugman que é, obviamente e para além de tudo mais, boa pessoa.



