Afinal, como sempre, enganei-me. Passos não vai jogar só a cartada Relvas: ainda vai experimentar um pouco mais a de Gaspar. Deve julgar - e deve ter razão, afinal o político é ele - que a menor impopularidade do ministro lhe vai render ainda alguma coisa. Eu diria que esse nível de popularidade advém da distância em relação ao PM e que uma aproximação lhe fará mal. Mas também pode ser uma cartada desesperada. Será? Bem, enviar um ministro das finanças para a terra da avó, com subsídios para duas fábricas, parece mesmo um acto de desespero (a seguir vai construir o mito do jovem rural que não gostava da política e que desceu à cidade para salvar o país?). Mas Passos faz isto também porque está a seguir uma estratégia: a da ditadura financeira e o último episódio sobre o QREN é isso mesmo. Só que começa a haver sol de mais para a peneira. Portugal dos anos 2010 não é Portugal dos anos 1930. Nem a Europa. Nem o mundo. Nem a economia internacional. E, já agora, nem a teoria económica.
Santos Pereira tem sofrido sucessivas perdas de poder, talvez porque acreditava no mesmo. Confiava. Mas agora o limite, o cúmulo, chegou aos pés dele: já nem os dinheiros de Bruxelas podem ser "gastos" na economia. E pode fazer três coisas: ficar e calado; sair; ou ficar e jogar com o poder que tem enquanto ministro, procurando apoios fora do governo e falando com tino e com direcção. Afinal, nos países democráticos, sem ditadura financeira ou outra, é natural haver discordância dentro dos governos, e disputas entre ministros. Se ficasse e falasse, faria um grande favor ao país. E, já agora, a ele próprio, se ainda for a tempo. É que só com finanças não vamos mesmo lá. Como diria o meu avô.



