A recente subida dos juros dos títulos da dívida portuguesa está a revelar o erro dos pressupostos do governo português, relativamente ao seu plano de ataque à crise que herdou. Recordemos que o plano pretendia fazer regressar o país aos mercados financeiros internacionais em 2013 e, com isso, estabelecer as condições de crescimento, com base em juros mais baixos quer para o estado quer para os particulares. Quando o pressuposto está errado, tudo o resto errado está.
Muitos perguntam aos críticos desse plano imaginativo qual deve ser a solução alternativa. Quando olhamos à nossa volta, vemos que as soluções mais plausíveis passam por uma maior intervenção do BCE, que se substituiria aos mercados financiando os estados, indirectamente; ou pela redução dos custos do trabalho, quer pela redução da TSU, quer pela redução dos salários nominais, numa medida suficientemente grande.
Acontece, todavia, que nenhuma destas medidas é alternativa. O que se passa, na verdade, é que elas são complementares, devendo-se acrescentar que a elas se poderão eventualmente associar outras medidas. Quais? Não sei, mas um conselho de aconselhamento que este governo, ao contrário de muitos outros pelo mundo civilizado, não tem, seguramente poderia indicá-las. Por exemplo, algum gasto em obras públicas podia ajudar, assim como alguma contabilidade financeira autorizada pelo Eurostat. O que se queira.
O erro maior deste governo tem sido, de forma claríssima, ter colocado tudo no mesmo cesto. De tal forma que até a descida da TSU, uma medida que poderia perfeitamente encaixar no seu discurso, foi liminarmente abandonada. E o maior erro dos críticos do governo tem sido o de não mostrar de forma clara a ideia de que a solução tem de passar por um cozinhado de medidas, um cozinhado de espectro largo.
E é isso que é preciso fazer. É preciso ajustar o défice público, mas não reduzindo-o drasticamente; é preciso realinhar as contas externas, mas não contar com rapidez; é preciso baixar os salários, mas não de forma abrupta e deixando a inflação actuar; é preciso o estado gastar dinheiro em obras, mas pouco; é preciso que o BCE intervenha, mas de forma gradual e cautelosa; é preciso pôr a UE a gastar dinheiro, mas dentro de limites bem estabelecidos. Tudo isto obriga a uma grande modéstia sobre as ideias de cada um e ao reconhecimento de que as coisas têm de ser feitas, não sob consenso, mas dando a cada ideia espaço para ser experimentada.
O que é que isto tem de novo? Nada, absolutamente nada - mas apenas em Espanha, Itália ou em França. Só por cá, neste beco ideológico em que o país está metido, esta ideia de caldo de medidas consegue parecer uma coisa do outro mundo.
Foi a leitura deste texto, simples e objectivo, que mostra claramente uma das coisas que deve ser feita (a descida dos salários reais) que indirectamente estimulou estas palavras, muito embora elas estejam por cá há algum tempo.
PS: O JN fazia bem em corrigir este título, que está errado.



