Estes dias, ao observar mais de perto dois políticos que nos importam, Gaspar e Merkel, acho que encontrei uma nova opinião. É ela que há muito tempo que há no horizonte, não um, mas sim dois euros, e que um não decorre necessariamente do outro. Um desses euros foi o que foi construído; o outro é o que muitos desejam. Mas são coisas diferentes.
Pensar assim leva a que se perceba melhor o apoio que Margaret Thatcher deu à criação da moeda única. A voz corrente é que ela a apoiou em troca do Mercado Único, nos idos anos 1980. Mas agora tenho outra interpretação para oferecer: ela apoiou-o porque era um euro "monetarista", regulado pelos mercados e apenas pelos mercados. Assim, também faz mais sentido que Gaspar, outro eurocéptico (euro de União Europeia, claro), tenha gostado tanto do projecto. Ora esse euro é o que temos e a mais não é obrigado. Merkel gostou da herança e transformou-a em propriedade da Alemanha unificada. Se quiser, não o larga, não precisa, tem história, é coerente, está nos cânones, conta com muitos apoiantes, alguns, paradoxalmente, nas altas esferas deste pobre país periférico - que, a manterem-se as coisas como estão, dele será, obviamente, um dia excluído.
O euro que muita gente deseja é outro. É o euro gerido por estabilizadores não automáticos, por instituições que intervenham nos mercados para diminuir a sua volatilidade que, em excesso, é um verdadeiro empecilho do progresso económico.
Mas, se o euro estável não decorre do euro "monetarista", a cada vez mais anunciada morte deste último torna-se mais provável. Com efeito, temos pela frente mais do que um simples aperfeiçoamento da moeda, e o que é preciso fazer só muito a contragosto o será por aqueles que adoram a actual versão da moeda única. Enfim, talvez amanhã pense de outra maneira...