É chato estar sempre a falar da história, mas a verdade é que há coisas que demoram a ser sacudidas. Uma delas é seguramente a ideia de que somos um povo diferente, uma outra coisa que não há na Europa. E, de facto, somos, mas todos eles também são. A entrada nas Comunidades Europeias em 1986 e depois no Euro em 1999 mudou de facto (e de jure) o contexto da nossa política. Mas ainda não mudou bem as ideias.
Uma das consequências da abertura à Europa é que o governo nacional tem menos espaço para fazer disparates, pois está sob maior vigilância. Uma parte dessa vigilância é menos agradável e nem é totalmente equilibrada, como acontece com as agências de rating, que são um grupo de gajos porreiros com poder a mais (por enquanto - até os alemães se cansarem). Mas é melhor tê-las por aí do que não ter nada. A outra vigilância é da Comissão Europeia e Bruxelas, em geral, para além das outras capitais. Sendo assim então veja-se:
1) Alguém pensa que isto foi decidido sem se ter o pleno aval de Bruxelas? Ou, melhor dizendo, pondo em hipótese de investigação arquivística futura: se não houver clamor do lado de lá, porventura tal acontece porque a decisão foi tomada com o aval implícito de Bruxelas. Essa hipótese até tem um bom fundamento pois, afinal, parte da massa vem do Banco Europeu de Investimento, uma instituição comunitária.
2) Ao contrário do que os analistas monetaristas-mesmo-sem-o-saberem poderiam pensar, as agências de rating não reagiram ao anúncio. Porquê? Será que elas sabem que as obras dão algum crescimento (embora não o mais saudável, mas pelo menos o que há por aí, ou então ajudará ao mais saudável) e que isto sem crescimento é que não vai lá, e não haverá mesmo dinheiro para pagar a dívida? Mais uma hipótese.
Hipótese a hipótese, vamos vendo se nos conseguimos lentamente libertar da herança passada e assumir finalmente que este país é tão europeu como os outros. Só que um pouco mais longe.
Ah, e era bom que mais forças políticas cavalgassem nesta onda, para que não pareça que se está a elogiar o mordomo, sempre que se fala bem deste tipo de decisões. É que se a culpa quase sempre não é dele, também os louros quase sempre o não são.
Finalmente: o que se diz neste post é algo arriscado pois ainda é possível um puxão de orelhas de Bruxelas (é por isso que é bom fazer História, pois aí sabe-se logo o que vem a seguir). Aguardemos serenamente.



