Em Portugal, às vezes parece comum uma ideia que diz que a democracia foi inventada para escolher as pessoas mais inaptas, mais estúpidas e mais interesseiras para nos governar, enquanto que os lúcidos, os inteligentes, os impecáveis ficam de fora, só lhes restando apontar os erros que vão sendo feitos (ver por exemplo, e cito blogues preferidos, aqui, aqui e aqui).
Como antítese dessa ideia, surge muitas vezes, presumo, embora apneas em pano de fundo, o argumento de que "isto" foi ao sítio com Salazar, precisamente porque ele não teve que enfrentar esse estúpido sistema de escolha de governantes que é o voto.
Se Salazar fosse vivo e estivesse aí a curar esta nossa crise e fizesse o mesmo que fez em 1928, faria o seguinte: fechava as fronteiras, tirava a massa que está em Angola (sim ele fez isso), aumentava drasticamente os impostos (idem), cortava a eito nas despesas, e montava uma excelsa máquina de propaganda para dizer que era o melhor. Salazar não teve problemas em fazer isso porque, ao contrário do que se passa agora, a economia por trás dele estava bem e em breve voltaram as receitas ligadas ao crescimento. Estava bem, como no resto da periferia europeia onde, por uma espécie de milagre que ainda não foi suficientemente estudado, a industrialização ganhou força vendendo coisas feitas em fábricas grandes para os respectivos mercados internos.
A bolsa portuguesa desceu 10 por cento nos últimos dois dias, os juros pagos pelo Estado nas novas emissões subiram e os ratings desceram. Certo. Mas isso não aconteceu porque o nosso governo é estúpido e não quer ouvir as vozes do bom senso. Sempre que a culpa é do mordomo, do governo, da crise, da cultura, da mentalidade, tenha a certeza de que a sua análise é pobre. Tudo isso está a acontecer porque o governo teve de pedir uma data de dinheiro para se substituir aos bancos, que entretanto tinham entrado em crise, no financiamento da economia.



