Em 1988 emigrei por 3 anos para Florença. Então, a distânca entre Portugal e a Itália do Norte era muito maior do que é hoje e valia mesmo a pena sair pelas razões mais óbvias. Para além disso, a universidade para onde fui também era o dia da noite. Mas, adiante. Era lá que eu estava quando caíu o Muro de Berlim, faz daqui a pouco 20 anos. A coisa que mais me surpreendeu foi a quantidade de amigos meus que pegaram no comboio para ir ver, para estarem presentes. Fiquei espantado porque estava habituado a passar ao lado dessas coisas europeias.
O hábito em Portugal era falar sobre elas, rapidamente esquecê-las e passar ao lado. Eu nem era de grandes discussões filosóficas sobre esses temas, mas imagino que em muitos sítios se debatiam as teorias mais vãs, à esquerda e à direita, sem grandes conhecimentos de causa. Ainda somos um pouco assim, distantes do que é mesmo importante na Europa e sem grandes conhecimentos de causa. As coisas mudaram em alguma medida, entretanto, mas ainda não o suficiente. Quando mudarem mesmo, começaremos a olhar para tudo, incluindo o estado do país, de forma diferente. Mas Berlim é mesmo longe. Isto tudo vem a propósito de quê? Acho que de ver recorrentemente a teimosia com que as pessoas insistem em olhar para o atraso luso como sendo uma questão de culpa lusa. Se olharmos para o atraso luso a partir de Berlim, ou de outras capitais, vemos coisas bem mais interessantes, quer quanto às causas do dito, quer quanto às possíveis soluções.

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