Este é um daqueles momentos em que me sinto mal por roubar tempo ao meu patrão, a Universidade de Lisboa, ao escrever sobre algo para que em princípio não sou pago. Bem, há uma forma de tornear esse sentimento de culpa que é escrever sobre o assunto como escreveria sobre os assuntos para que sou pago. Para mim, isso até nem é muito difícil. O estudo da história económica do século XIX português, por exemplo, também requer a análise de manifestos. Na altura, era mais comum chamarem-se folhetos, pasquins ou outras coisas, e muitos eram escritos por homens (mulheres aqui não havia) de grande valor. Aliás, há uma polémica célebre entre Alexandre Herculano (que era contra e ficou na história) e o jornalista António Pedro Lopes Mendonça (que era a favor, não ficou lá muito na história e morreu doido - cuidado, portanto) sobre a necessidade dos caminhos-de-ferro, nos anos 1850 (ver aqui, por exemplo). A história não ilumina o futuro, mas a verdade é que ler esse tipo de coisas e saber o que é ou não é novidade ajuda a construir opiniões.
O Manifesto dos 28 não é um trabalho profundo. É mesmo um manifesto. É composto essencialmente por quatro partes. A primeira, implicitamente anunciada como a mais importante, é a lista dos nomes. Sobre isso já tive ocasião de dizer algo. A segunda, é o manifesto propriamente dito, assinado por todos; a terceira, são uma série de gráficos; finalmente e por essa ordem de importância, a quarta parte é constituída por depoimentos individuais escritos pela maior parte dos signatários. Esta última parte contém um leque demasiadamente amplo de opiniões sem uma grande coerência de conteúdo (não tentei muito a sério essa análise por isso estou aberto a mudar de ideias), apresentadas aliás sob várias formas, incluindo republicação de artigos de jornal, excertos de livros e até apresentações em PowerPoint. O esforço de coordenação morreu um pouco nesta praia (o que acontece muitas vezes: a coordenação tem quase sempre de ir muito além dos primeiros entusiásticos sins).
Bem, correndo o risco de ser injusto para alguns dos textos individuais, resta-nos o manifesto e os gráficos. O manifesto não precisa de grande análise. É uma opinião e está lá como tal. Ao ler, todos sabemos o que dizem e o que querem os seus signatários. Mas, atenção, muita atenção: não está lá nada provado. Não há demonstração de nada. Algumas pessoas poderiam talvez pensar que a economia é uma ciência de frases. Mas não é. E também não é uma ciência de números. Quando é ciência, é uma ciência de demonstração de ligações de causa a efeito entre variáveis (sim, também não é uma ciência de correlações simples). Por isso o que lá está é uma opinião. Diga-se em prol da justiça, que isso é claro no próprio texto do manifesto.
Restam-nos os gráficos. Pois, os gráficos também não provam nada. Mostram, isso sim, que o país está em maus lençóis. Assustam, sem dúvida. E dizem-nos claramente que temos de ter cuidado. Mas não dizem que os investimentos não devem ser feitos. Nem dizem que eles são "improdutivos".
Estamos, portanto, com mais um manifesto, mais um conjunto de opiniões, mais uma página web, mas não estamos muito diferentes do que estávamos. É um manifesto político, portanto.
Há alguns pressupostos do manifesto que convinha ainda analisar. Por exemplo, a ideia de que o dinheiro que não seria gasto em TGVs e outras obras grandes, podia ser gasto em PMEs e outras coisas menores. Uma alternativa ao gosto da planificação "socialista". Já viram o que seria o Estado despejar 30 mil milhões em PMEs? Algumas pessoas do QREN esfregariam seguramente as mãos de contentes, com tanto dinheiro para brincar aos empresários.
Termino com um elogio ao esforço e àquilo que apesar de tudo foi atingido com a iniciativa. Apesar de eventuais defeitos, que todos temos, o manifesto em análise levou-nos mais longe pois ajudou a clarificar posições.



