Não há milagres económicos, pelo menos na realidade. Mas na opinião pública eles existem muito frequentemente, sendo a melhor explicação para isso o facto de eles servirem para o debate político. Também há alguma falta de conhecimento. Dito isto, deve acrescentar-se que há milagres económicos mas contam-se pelos dedos. Não, não é o caso da Alemanha a seguir a 1945 nem da Coreia a seguir a 1960. Os casos excepcionais são a Finlândia, entre 1870 e 1914 e... não me lembro agora de outro. A Irlanda aparece muitas vezes como um outro caso de milagre. Mas não é.
O erro relativamente à Irlanda tem quatro explicações mais importantes. A primeira é que, tendo sido parte do Reino Unido entre 1800 e 1923, não existem as estatísticas nacionais tradicionais para o cálculo de índces de crescimento e rendimento para esse período. A segunda, é que a ideia de milagre económico serve bem ao nacionalismo, isto é, às versões mais correntes da História do país. A terceira, é que da Irlanda emigrou muita gente e a emigração é quase sempre conotada com miséria. A quarta é que houve uma grave fome na década de 1840. Assim, a Irlanda aparece frequentemente retratada como um país miserável, pobre, faminto e de emigrantes, durante o século XIX, tendo tudo isso sido ultrapassado a seguir a 1923 graças à independência e às políticas dos governos nacionais. Tudo não correu pelo melhor por causa da manutenção de uma excessiva dependência económica relativamente à Grã-Bretanha, a qual só terminou com a adesão à CEE em 1973 e por aí fora.
Pois bem, não é bem assim. Segundo as estimativas de Geary e Stark (2002) (que aqui deixo temporariamente), extremamente engenhosas mas fundamentalmente correctas, a Irlanda em 1871 era o quinto país (isto é, nação) mais rico da Europa, a seguir à GB, Bélgica, Países Baixos e Suíça. Até 1911 quase toda a Europa convergiu e por isso a Irlanda já não se destacava, naquele ano, mas mantinha-se ainda bem na liga da frente. Isso foi conseguido, defendem aqueles autores, graças a ganhos de produtividade e às alterações da estrutura económica. Em 1911 a Irlanda, como eles dizem, não era a mesma economia de 1871 com menos gente, mas sim uma economia profundamente mudada, como as demais da Europa que se industrializou.
Portugal não está na tabela citada mas está nesta tabela, onde se pode ver que já em 1871 estava a milhas da Irlanda. Os níveis relativos de rendimento não dizem tudo mas dizem muito. Uma das coisas que dizem é quanto se pode esperar que os países ganhem ou não do contacto com os outros que estão em desenvolvimento. Quando se é moderadamente pobre, consegue-se ganhar alguma coisa e acompanhar os que vão mais à frente. Quando se é muito pobre, isso já se torna mais difícil. Uma história porventura já bem conhecida a que faltava juntar o caso irlandês.
As políticas nacionalistas seguidas entre 1923 e 1973 só não ficam mal neste retrato porque a Irlanda é hoje, novamente, tão rica como os mais ricos da Europa (embora mais sensível a mudanças na economia global).



