No dia 1 de Novembro de 1755 Portugal sofreu a pior catástrofe natural da sua história. Apesar do epicentro ter ocorrido a sudoeste do Algarve, o desastre veio a ser conhecido como o terramoto de Lisboa por causa do impacto que teve na capital portuguesa. O sismo teve uma intensidade de 8,7 na escala Richter, foi constituído por três abalos separados e teve uma duração total de quase 9 minutos. Mas a catástrofe não se ficou por aqui. O tsunami que se seguiu causou perto de mil mortos e devastou não só a baixa de Lisboa, como muitas das localidades costeiras. O golpe final na capital aconteceu com os terríveis incêndios que se rapidamente propagaram por Lisboa e que grassaram sem parar durante cinco dias, devastando a capital portuguesa quase por completo. Setúbal, Cascais e Faro também foram muito afectadas.
Apesar da sua magnitude e das enormes repercussões sociais e políticas do desastre, a literatura existente tem dado pouca importância ao papel que o terramoto desempenhou para os problemas económicos e financeiros do Estado português no último quartel do século XVIII, bem como as reformas pombalinas. Este artigo tenta suprimir esta lacuna apresentando novos dados para estimar o impacto económico do terramoto de 1755.
Através de uma análise cuidada das fontes existentes, bem como um extenso trabalho de arquivo, o artigo apresenta novas estimativas do número de vítimas do terramoto (entre 20 a 30 mil), bem como dos danos causados. O custo directo do terramoto de 1755 é estimado entre 32 e 48% do PIB português, um valor significativo, mas certamente não devastador. Outros impactos económicos incluem o efeito sobre os preços e os salários. Os preços dos bens essenciais e dos materiais de construção subiram substancialmente em 1756 e parte de 1757, voltando em seguida aos seus níveis médios decenais. Assim, os controlos de preços decretados pelo Estado não tiveram efeito face à escassez de alimentos e materiais de construção nos meses que se seguiram ao terramoto. Um fenómeno semelhante passou-se com os salários dos trabalhadores empregues no sector da construção. Os salários nominais e reais dos carpinteiros e dos pedreiros subiram significativamente em 1756 e 1757, só voltando aos níveis que antecederam o desastre uns anos mais tarde. Ora, um dos dados mais interessantes da investigação de arquivo foi constatar a resposta da Coroa às mudanças geradas pelo terramoto. Para tentar de impedir a especulação, o governo decretou o congelamento dos salários. Porém, a escassez de trabalhadores qualificados era tal, que os salários (como os preços) subiram na mesma. Como a Coroa queria dar o exemplo, fez tudo por tudo para tentar disfarçar os aumentos salariais. Deste modo, os trabalhadores contratados pela Coroa continuaram a receber os mesmos salários nominais que auferiam antes de 1755, mas agora suplementados com 50 a 100 reis para “sestas” ou para “almoços”. Esta prática deixou de existir após o congelamento de salários ter terminado.
Em suma, o desastre natural teve um impacto significativo sobre alguns dos principais indicadores macroeconómicos da época. Porém, o impacto macroeconómico do terramoto foi meramente temporário.
Porém, o maior impacto do sismo não foi imediatamente visível. Nomeadamente, o artigo defende que, a longo prazo, o terramoto pode ter sido benéfico para a economia portuguesa. O sismo de 1755 foi uma enorme oportunidade para o grupo reformista liderado por Pombal, que aproveitou a crise para sedimentar a sua influência nos corredores do poder e para implementar uma série de medidas que se vieram a mostrar benignas para a economia nacional. O terramoto foi instrumental, porque, como Nuno Monteiro e José Subtil argumentaram recentemente, é muito provável que sem o capital político angariado com a resposta à crise, Pombal não teria tido o apoio político necessário para levar a cabo a sua agenda reformista. Sem esse capital politico, não teria sido possível ter lutado contra os Jesuítas, ter reduzido a influência da Igreja e da nobreza, ter conseguido combater a omnipresente influência britânica, ter introduzido uma série de políticas mercantilistas e de estímulo à produção industrial nacional, bem como ter levado a cabo a maior reforma administrativa da era moderna.
Apesar das inerentes contradições associadas à personalidade de Pombal, as reformas pombalinas tiveram um efeito positivo na economia nacional, tornando-a mais moderna e competitiva. Neste sentido, paradoxalmente, o terramoto de 1755 representou uma oportunidade de reforma da sociedade e economia portuguesas. Uma enorme catástrofe natural pode assim ter-se transformado numa bênção a longo prazo para um país que, até então, tinha permanecido demasiado tradicional e conservador, tanto económica como politicamente.
Este texto baseia-se no artigo "The Opportunity of a Disaster. The Economic Impact of the 1755 Lisbon Earthquake", Journal of Economic History (forthcoming).
Álvaro S. Pereira é Porfessor Associado da Simon Fraser University e autor do blog "Desmitos".



