Não só o desenvolvimento não é o prémio da virtude, como muitas vezes procuramos virtudes no desenvolvimento, quando elas de facto não estão lá. Ou, pelo menos, estão lá tanto como alhures.
Isto vem a propósito da crise deste ano. O sistema financeiro norte-americano não tem uma história de virtude. Não é a esquerda a falar contra a direita: amigos da esquerda, não vejam aqui uma tábua de salvação para os vossos argumentos. Mas é algo que a direita não entende bem: amigos da direita, o mercado é mais comlpicado do que pensam (ver aqui como e porquê). E essa história de vício não se resume à Grande Depressão de 1929-1932. Dela faz também parte a recente crise das "dot.coms", a crise dos anos 1980 e, quem se lembra dos filmes de cowboys, a gigantesca trapalhada que era o mercado financeiro norte-americano até à unificação da moeda nos anos 1890 e às leis anti-trust que se seguiram (mais ou menos isto, não fui ver datas nem confirmar coisas).
Agora estou a ler sobre outras virtudes, nomeadamente sobre a virtude do Estado e do sistema fiscal britânico durante a revolução industrial e no século XIX - sim, estou a pensar nos teus artigos, João Carlos Espada. E o que tenho aprendido?
Isto: - "During the eighteenth century, Britain was one of the most heavily taxed and indebted states in Europe", embora sem "serious political problems and with a remarkable level of compliance".
E isto: - "By contrast [with Britain], the French state [in the nineteenth century] was more hesitant about interfering in the lives of its citizens (...). The British state was more interventionist (...) and developed techniques to inquire into individual incomes, working with the taxpayers to intervene more effectively in the private affairs of the subject". - O que me diz a isto, caro (permita-me) José Manuel Fernandes?
Ou ainda isto: "The British state was more effective and stronger than often assumed, in a way not captured by the notion of a laissez faire state".
Estas citações são tiradas de Martin Daunton, "Creating legitimacy: administering taxation in Britain, 1815-1914", in J. L. Cardoso e P. Lains (Eds.), Paying for the Liberal State. The Rise of Public Finance in Nineteenth Century Europe, Cambridge, Cambridge University Press (forth 2009).



