O Consenso da Almirante Reis?
De dois em dois anos, o Banco de Portugal organiza uma conferência sobre "Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu", tendo sido realizada hoje a quarta edição. O Banco de Portugal tem tido um papel crucial na investigação sobre a economia portuguesa e estas conferências são parte disso.
É já tradição que essas conferências comecem com uma alocução do Governador do Banco, Vítor Constâncio, cujo conhecimento sobre o funcionamento da economia portuguesa é enorme, não só porque é um dos poucos bons economistas portugueses com funções públicas, como porque tem por trás dele a boa bateria da investigação feita no Banco. Este ano não pude ouvir a conferência, mas li no Jornal de Negócios esta citação: “Não há margem para descer impostos como tenho dito ao longo dos últimos meses e também não há margem para aumento do investimento publico"
Devo dizer que, na minha modesta opinião, acho que o Governador não deveria fazer este tipo de intervenções. Bem sei que ele está obrigado a avisar o governo português, sendo como é um membro do Banco Central Europeu, de que é preciso obedecer ao Pacto de Estabilidade e Crescimento. Mas, se calhar ultrapassa as suas funções. Não sei.
Acontece que a mesma conferência teve como orador convidado Philippe Aghion, a que assisti, e que disse algo que pode ser interpretado em sentido contrário. Depois de recordar que o Euro é bom, como é, que é preciso manter a estabilidade macroeconómica, e que as reformas estruturais são para continuar, disse também que é preciso política económica, inclusivamente, política económica contra-cíclica. Aliás, acrescentou algo que foi música para os meus ouvidos: - “Meus amigos, é preciso ir a Bruxelas pedir dinheiro extra para introduzir algumas reformas, como a da flexigurança, da melhor educação, e de outros custos de transição. Vejam-se as últimas páginas dos slides que apresentou.
É certo que investimento público não é isso. Mas é também certo que investimento público acompanha isso.
Não percebo as razões das declarações de Vítor Constâncio. Pode ser medo de que o despesismo tome conta do Governo, em vésperas de eleições. Se for isso, vá lá, pode ser. Se não for, se calhar não ajudam muito.


