Anda por aí uma polémica interessante sobre se os juros portugueses estão em queda por causa do Governo nacional ou por causa do BCE. A polémica tem uma hipótese de partida boa e uma má, relacionadas com a dimensão dos agentes, por assim dizer, mas não é obviamente de solução fácil. Todavia, alguma cronologia simples, algumas contas fáceis e algum raciocínio limpo

ajudam. E então é mais ou menos assim (ver gráfico e fonte). A austeridade foi imposta em vários sítios por causa do medo dos juros altos e quanto mais alto foi o medo mais forte foi a austeridade. Por outras palavras, a dimensão dos cortes foi o resultado não de uma avaliação económica, mas da dimensão do medo. Entretanto, os
spreads relativamente aos juros alemães têm vindo a cair. E porquê? É isso que não se sabe muito bem. Mas sabe-se que há uma correlação positiva quase perfeita entre a dimensão da queda dos juros e o respectivo nível no início da crise. Ou seja, caíram os que tinham mais para cair. Isto numa comparação entre Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Acresce que a relação entre a evolução dos
spreads e a evolução do peso da dívida externa no PIB é muito fraca. Ao contrário, há uma relação positiva forte - que só não quer ver quem não quer ver - entre nível de austeridade e contracção da economia, estando a Grécia na ponta e Portugal logo a seguir, como em tudo o demais dito até aqui. Não por acaso, há uma relação directa forte entre nível austeridade e o peso da dívida no PIB. Repte-se: quanto mais austeridade, mais a economia caiu e mais a dívida no PIB
subiu. É esta a loucura que a muitos espanta. Tendo tudo isto começado, recorde-se, com o medo. A falta de coragem nunca foi boa conselheira e nos dias que correm ela está apenas a trazer miséria às pessoas. Para quem anda à procura de alternativas, eis uma: tenham coragem.